25/06/10

O separar das águas

A ofensiva da oligarquia global põe na ordem do dia a revolta e torna urgente a multiplicação e extensão das lutas se queremos evitar o pior. Mas a urgência do combate não nos dispensa de ter presente que é de combater criando democracia, defendendo a igualdade e a liberdade que se trata. Dois testemunhos concretos, de dois resistentes que pegaram em armas contra o fascismo - um deles, em Espanha, durante a Guerra Civil; o outro, em França, durante a Segunda Guerra Mundial, a Ocupação e o regime de Vichy - poderão ajudar a tornar mais sensível a necessidade do separar das águas.

Comecemos pelo testemunho de George Orwell, que combatia integrado nas milícias do POUM: Um dia de madrugada, outros homens e eu fomos armar uma emboscada aos fascistas nas suas trincheiras, fora de Huesca (…) Foi então que um homem (…) saltou por cima da trincheira e correu pelo parapeito diante dos nossos olhos. Estava meio vestido e segurava as calças com as duas mãos enquanto corria. Eu abstive-se de disparar sobre ele. Primeiro porque sou um péssimo atirador e seria pouco provável que atingisse um homem a correr à distância de cem jardas (…) Também não disparei por causa do pormenor das calças. Estava ali para disparar sobre os "fascistas", mas um homem que segura as calças não é um "fascista", é visivelmente uma criatura semelhante a ti, e não te sentes com a coragem de disparar sobre ele.
George Orwell, Recordando a Guerra Espanhola, Lisboa, Antígona, 1984.


O segundo testemunho é de Jean-Marie Domenach: O comandante de uma unidade FFI (…) regressava [clandestinamente] de comboio em direcção ao Sudoeste. Perto de Limoges, o maquis mandou parar o comboio. O nosso amigo viajava em primeira classe e reconhecera o chefe da Milícia, Darnand, que ia sentado diante dele. Depois de ter chegado, contou-nos a sua hesitação: "Bastava uma palavra minha e Darnand seria detido pelo maquis; mas não pude fazê-lo; não quis denunciar (…)  [H]oje penso que gestos como este (…) são um testemunho contra o absoluto da violência, e [que] essa atitude (…) adquire um outro sentido (…); talvez mesmo tenha dado uma outra dimensão ao nosso combate. Não era só a eliminação do inimigo que estava em causa, mas a própria denúncia. Nessa época, milhares de franceses tinham denunciado muitos dos seus compatriotas à polícia alemã, por vingança, por cupidez, ou simplesmente por paixão da ordem que, em época de crise, se torna histérica e assassina. A recusa de denunciar um homem que devia grande parte do seu abominável poder à denúncia, era a consciência de que o inimigo podia contaminar-nos no próprio momento em que estávamos certos de o vencer; significava afastarmo-nos dele, distinguirmo-nos dele em absoluto.
Jean-Marie Domenach, O Retorno do Trágico, Lisboa, Moraes Editores, 1968.

4 comentários:

Anónimo disse...

MS. Pereira: Não estará a tomar a Nuvem por Juno, meu caro? E a historicidade das subtis e ambivalentes tomadas de posição sobre as " relações de força " expressas na " moralidade " do matar (ou não matar), não acabam por restringir uma necessária e fundamental atitude de vontade e iniciativa política visando uma perspectiva de libertação social e económica? Não se estará a afastar demasiado da perspectiva da Luta de Classes,quando o " Império ", o estado supremo do capitalismo,instituiu a guerra como base primeira da política? Conhece o conceito de Hardt/Negri sobre violência defensiva? " A necessidade d violência defensiva encontra a sua expressão moderna mais extrema no levantamento do gueto de Varsóvia contra os ocupantes nazis. Parqueados nun gueto cercado de muros e vendo os seus vizinhos e pais deportados para campos de trabalhos ou de exterminação, os judeus de Varsóvia cabaram por organizar um ataque militar desesperado ", in Multitude, Hardt/ Negri, edit. 10/18. France. Niet

Miguel Serras Pereira disse...

Niet,
podias ler com algum cuidado o que eu escrevo. Orwell bateu-se na frente de batalha contra os franquistas e escapou por pouco do ferimento recebido, algum tempo depois do episódio que descreve, diante de Saragoça. Esteve sempre longe de ser um pacifista fanático (basta ler a sua Homenagem à Catalunha, ou o Leão e o Unicórnio, ou o seu polémico ensaio sobre Gandhi).
Domenach foi membro da Resistência e nunca, que eu saiba, assumiu posições de repúdio incondicional da violência.
Portanto, além da vontade de implicar e obter aplausos de alguns fanáticos que não merecem menção aqui, não sei o que tem o teu comentário a ver com o que escrevi.
msp

Anónimo disse...

Caro MS.Pereira: O meu comentário é um pouco abstracto, e muitissimo cordial e compreensivo.As questões- as situações como dizia o Sartre, que bebia quase um litro de Rouge ao almoço antes de ir ler Hegel...-são muito dificéis. Oh, Miguel, poeta, ensaiasta e tradutor singular e gigantesco,não terá a sensibilidade muito apurada neste momento? Eu só tentei lembrar uma tese do livro do Hardt/Negri. Mais nada. E apelar a umas conhecidas notas do Trotski insertas no "Terrorismo e Comunismo".Domenach é outra história: não nos podemos esquecer que os católicos tomaram posições muito problemáticas na Resistência; e a isso estão ligadas aquelas norte-americanas boutades contra o Blanchot, do J. Ellmann. Cheguei agora a casa,sem notas estou a responder-lhe com o " coração nas mãos ". Sabe,que não sou nada de rebanhos e muito menos M-L. Salut! Niet

Daniel Nicola disse...

O pormenor das calças enquanto retrato do outro como igual, é de uma complexa simplicidade.
Ninguém poderá negar a necessidade da violência enquanto arma última contra a bestialidade fascista, mas até aí há um ser humano para lá do rótulo.
Ter consciência disto na guerra tornar-nos-à provavelmente mais fracos. Tê-la depois resulta em traumas e culpas que jamais se expiarão.
Comentei aqui, mas todos os excertos e textos que hoje li por aqui merecem um agradecimento.
Porque nem só de ruído se faz a blogosfera.