16/06/11

Ideologia (2)

Falei aqui da malvada da ideologia. Antes de continuar, faço apenas uma ressalva: os embaraços provocados pela noção de ideologia não se limitam, por certo, ao campo político. Não é assim tão raro que um historiador critique o trabalho de um colega acusando-o de ter abandonado as elementares regras científicas e de ter cedido às suas paixões ideológicas. Mas a questão da ideologia tem especificidades a nível do debate político. Concentro-me nos partidos de que estou próximo. E que por isso tenho mais vontade de criticar, o PCP e o BE. No campo do PCP a ideologia é um problema na medida em que parece só poder haver espaço para uma. Corre-se assim o risco de reduzir a ideologia a uma doutrina. A redução chegou a tal ponto que já não chega ser comunista para ser militante do PCP. Nem tão pouco marxista. Nem sequer marxista e leninista. É preciso ter sido abençoado pelo hífen do marxismo-leninismo. Dir-me-ão que nada disto é muito relevante quotidianamente. Que há uma cultura política que abrange a questão teórica mas que a ela não se restringe. Que quando um militante faz uma proposta não há quem vá confirmar se é ou não conforme ao que reza o hífen. E eu em parte concordo. Mas só em parte. Porque a questão não é simplesmente a inexistência de condicionamento ao desvio ideológico. Mas é preciso, sim, haver um clima que estimule esse desvio. Ideologia sem desvio é culto identitário. E isto em nada obriga que o PCP renegue a sua história ou os seus princípios. História não é igual a identidade. E, quanto aos princípios, o Partido pode e deve continuar a ser fiel ao princípio comunista (e não apenas como um horizonte, mas também como início de qualquer prática) sem, porém, obrigar-se a muitos mais ismos (os defensores da doutrina podem não acreditar mas já havia comunismo antes de Marx). Quando falo de criatividade ideológica, não falo, aliás, do filósofo X ou Y que apresenta uma tese assim ou assado. Mas a de um partido feito por homens e mulheres que se reúnem em múltiplos espaços de debate e que fazem dessas reuniões momentos de experiência política teórico-empírica. Quanto ao BE, fica para o próximo post. Aí a questão é outra, não sei se melhor, se pior.



também publicado nos unipoppers

4 comentários:

mikado tá lixado disse...

Ideologia não phode ser feita por homens e mulheres

não têm ideologias comuns

de resto ideologias são coisas muito pessoais

e sendo a do próximo sempre pior que a tua

e sendo a mulher do próximo por vezes melhor

a ideologia mata

a falta dela engorda

e mata mais lentamente

VÍTOR DIAS disse...

Escreve José Neves aqui com sublinhado meu :

«A redução chegou a tal ponto que já não chega ser comunista PARA SER MILITANTE DO PCP. Nem tão pouco marxista. Nem sequer marxista e leninista. É preciso ter sido abençoado pelo hífen do marxismo-leninismo».

Por experiência própria ou então por ouvir dizer, o José Neves devia saber que, quando se discute a vinculação do PCP ao «marxismo-leninismo» convém vê-la à luz da definição ou entendimento que o próprio PCP faz ou tem do conceito e não obviamente de outras definições ou entendimentos.

Já quando ao PARA SE SER MILITANTE DO PCP ser preciso estar «abençoado» pelo hifen do marxismo-leminismo não só nunca tinha dado por isso (certamente distracção minha) como sei sim que no seu artº 9º os Estatutos do PCP dispõem :«Pode ser membro do Partido Comunista Português todo aquele que ACEITE [juro que o «concorde» não está lá deliberadamente] o Programa e os Estatutos, sendo seus deveres fundamentais a militância numa das suas organizações e o pagamento da sua quotização».

Anónimo disse...

Agradecia a divulgação da manifestação que acontece amanhã contra as areias petrolíferas:

No próximo dia 18 de Junho vai ter lugar o DIA INTERNACIONAL “STOP THE TAR SANDS” (PAREM AS AREIAS PETROLÍFERAS), que se irá traduzir em manifestações a nível global, com o objectivo de detêr a exploração destas areias de petróleo (com a sua maior expressão em Alberta, no Canadá), por parte das grandes companhias petrolíferas.

Assim, no dia 18 de Junho, em Lisboa, irá realizar-se um protesto que terá início às 17 horas, frente à Embaixada do Canadá (Avenida da Liberdade, nº 196-200) , seguida de uma caminhada até ao largo Camões (Baixa-Chiado).

Este meu email vem assim apelar à vossa presença e participação neste protesto, assim como à divulgação desta questão J

Apoiar as manifestações globais contra a exploração destas areias petrolíferas é, não só uma mostra de solidariedade para com as comunidades indígenas canadianas que assistem à destruição dos seus territórios ancestrais e violação dos seus direitos, mas também uma demonstração contra os terríveis efeitos a nível ecológico que este tipo de exploração provoca (pela devastação de um ecossitema irrecuperável, pelas enormes quantidades de água e energia gastas na sua extracção e producção, assim como pelos gases com efeito de estufa libertados para a atmosfera) mas sobretudo contra os graves problemas causados pela indústria petrolífera duma forma geral.

TRAGAM BANDEIRAS, CARTAZES, FAIXAS… O QUE QUISEREM! MAS SOBRETUDO TRAGAM A FORÇA DA VOSSA VOZ INDIGNADA CONTRA AS BARBARIDADES QUE ESTE SISTEMA CAPITALISTA PERPETUA, PARA QUE TOD@S EM CONJUNTO APELEMOS A UM CONSUMO CONSCIENTE QUE NÃO DESTRUA O PLANETA OU ASSASSINE AS ESPÉCIES ANIMAIS E HUMANAS QUE NELE HABITAM!

Site internacional: http://paremastarsands.yolasite.com/

HORIZONTE XXI disse...

Em tempos alimentei duas galinhas:
Uma era linda, perfeita,um belo exemplar galináceo mas não punha ovos. A outra não tão bela mas contribuía todos os dias com ovos para a familia.
A primeira era olhada pela familia com admiração a segunda tratada com todo o carinho e preocupação.