21/06/11

Rui Tavares

Sou amigo do Rui Tavares e estou certo de que o que escrevo neste post não alterará esse facto. Mas escrevo enquanto eleitor que nas últimas eleições europeias votou na lista do BE encabeçada por Miguel Portas. Lamento muito que o Rui Tavares tenha decidido abandonar o grupo do BE no Parlamento Europeu. A nota de Francisco Louçã no facebook, que aliás tive a oportunidade de criticar neste blogue, foi o pretexto, dirão uns, a gota que fez transbordar o copo, dirão outros. Não me interessa perder um segundo a discutir se foi pretexto ou se foi a gota decisiva. A única coisa que me custa é perceber por que raio um conflito com Louçã leva Tavares a desvincular-se de Miguel Portas e de Marisa Matias, assim como de todo o Grupo Unitário de Esquerda, em que se encontram vários outros deputados, da Ilda Figueiredo e dos deputados do PCP a alguns outros bem mais próximos, político-ideologicamente, do Rui, como aliás ele e o Daniel Oliveira fizeram questão de relembrar ainda recentemente a propósito da situação na Líbia.
Mas, pronto, a ruptura está feita e sobre isto nada a dizer, a não ser, de novo, que lamento.

Além das lamentações, porém, há outra coisa que quero dizer. É que se reconheço ao Rui toda a legitimidade para protagonizar aquela ruptura, não lhe reconheço nenhuma legitimidade para mudar para os Verdes. Levar esse mandato para outro lado é inaceitável. Nas próximas eleições, assim o entendesse, o Rui poderia apresentar-se nas listas de um outro partido ou até de um novo que entretanto formasse. Neste mandato, nunca. Eu votei numa lista de um partido dirigido por Francisco Louçã e seus pares de direcção e que é simultaneamente composta por homens e mulheres concretos, como o Miguel Portas, a Marisa Matias, o Rui Tavares e outros tantos. Não vou discutir se votei mais por ser o partido do Francisco ou por ser a lista da Marisa. Porque, na verdade, votei sobretudo numa lista com um determinado programa. E este programa não é o dos Verdes (por várias razões que o Rui conhece bem).

O Rui Tavares deveria renunciar ao mandato para que foi eleito. Até porque não me importava nada de o ver mais perto de nós, de lhe pagar uma imperial num café de Lisboa ou de com ele subir as escadas em direcção ao terceiro anel da Luz, que para o ano é que é.

12 comentários:

Miguel Serras Pereira disse...

Zé, mas olha que, deixando de parte a discussão sobre qual deveria ter sido a atitude do Rui Tavares - e eu tendo a pensar que o RT deveria ter dado mais luta antes de tomar a decisão que tomou, procurando atear o rastilho de um debate necessário no interior do BE e na sua área -, a verdade é que absolutamente ilegítimo, como de resto tu foste aqui o primeiro a denunciar, foi o método utilizado pelo FL. E é absolutamente lamentável que, pelo menos publicamente, não se tenham levantado vozes capazes de contestar o coordenador, quebrando um silêncio que evoca o de uma empresa ou serviço hierárquico em que o direito à palavra deixa de valer perante o patrão ou o chefe.
Os próprios Miguel Portas e Marisa Martins, dizendo respeitar embora a decisão do RT, dizem que esta foi "desproporcionada" porque a questão entre ele e FL seria pessoal e não política.
Tudo mal, Zé, tudo muito mal, e o pior é a naturalidade com que o caso está a ser encarado - para já não falarmos nos aplausos que certos energúmenos estalinistas não têm poupado a FL na circunstância.
Vá lá que tu falaste a tempo - o que me encorajou a seguir-te ontem no encalço, e a tentar desentaipar o debate.

Abraço

miguel(sp)

Vera disse...

Não concordo contigo, Zé. Muita gente votou na lista do BE porque lá estava o Rui Tavares em lugar elegível, aliás não foi à toa que o BE o quis na lista. O BE não pode aproveitar-se dos nomes mediáticos para conseguir votos e a seguir achar que é só arranjar um caso para se descartar deles quando já não estão a dar jeito.
Creio que o Rui demitir-se seria assumir que são os partidos os donos do mandatos. Eu acho isso perverso. Deixa cada vez menos espaço para que tenhamos representantes eleitos capazes de pensarem pela sua cabeça - e tu sabes que já assim eles escasseiam.
bjs

Rocha disse...

Zé Neves, o Rui prefere ser ele as pagar imperiais. Aquele salário faz-lhe um jeitaço e a carreira política dele deve parecer-lhe ainda muito promissora.

É nestas coisas que se vêm os princípios das pessoas e não nas discussões bizantinas - que tanto gosta - da União Soviética, a autonomia, o movimento, o partido, o Lenine, e a Revolução-a-sete...

luis vasques disse...

sem conhecer grandes detalhes da coisa e sem querer meter coisa na coisa alheia o que me preocupa é que uma coisa privada entres dois adultos resulte numa coisa que não tem jeito nenhum..em que um deputado eleito nas listas do Bloco assim sem mais nem coisa mude de ideologia (grupo parlamentar) como quem muda de camisa e coisa e tal .. desculpem lá mas esta coisa não tem coiso nenhum!!

Anónimo disse...

Eu acho isto bom. O vazio pomposo fala para os passarinhos e o pseudo-tradutor (quer ele contar como traduziu o Vigotsky?) dá milho aos pombos.

الرجل ذبح بعضهم البعض ولكن الخيول باهظة الثمن disse...

eu falo (é falocrático)escrevo como eleitor que deu o boto ó dito Rui Tavares pró Par lamento mas não muito euro peuh...

Eu ká botei no dito cujo como podia ter botado um dos Portas

botar em pessoas num parlamento em que só temos uma dúzia de gatos pingados e uns cangalheiros chefes
e não em partidos

logo que opte por se distanciar de um bloco partido ou de umpartido quequermanter-seembloco

num me choca

eu nem sequer conheço o dito gajo

mas disseram-me que ia ser uma boa voz no par lamentus

e ê sô um gajo que confia na Maya

الرجل ذبح بعضهم البعض ولكن الخيول باهظة الثمن disse...

O vigotsky nã tinha uma data de teorias da inducação

tamém tinha theo rias de marxismo militante?

Manuel Galvão disse...

A pessoa tem que viver de qualquer coisa...

Anónimo disse...

Uma muito boa análise, com a qual concordo na íntegra.

Zé Neves disse...

vera,
ainda que tivesses razão, não creio que isso justificasse o que quer que seja. mas não acho que tenhas. a hipótese da eleição do rui não se colocava a quase ninguém no momento em que foi votar. mas, além do mais, acho que entre o rui e o bloco houve uma convergência, uma aproximação, que poderia ter corrido melhor, mas que não foi uma simples troca, como (bem sei que intenção) fica sugerido a partir das tuas palavras.

Vera disse...

ó Zé, desculpa lá, mas para o que aqui interessa o Rui não é diferente hoje do que era há dois anos atrás. Basta ires ler o texto que ele escreveu quando se apresentou como candidato. O Rui é e sempre foi um independente, um radical livre. Isso é uma coisa que quem quer que esteja numa estrutura partidária se apercebe logo. O Louçã, se é tão inteligente como tu dizes (e não duvido que seja), há-de ter percebido e o Miguel Portas, que até o conhece há mais tempo sabê-lo-ia certamente. Ou então estão mesmo completamente formatados por uma maneira tacanho-mesquinho-partidária de pensar e agir, o que é ainda menos recomendável. Se entenderam, sabiam que a qualquer altura do campeonato o facto de o Rui pensar pela sua própria cabeça, lhes iria trazer dores de cabeça a eles. Mas a maneira de resolver a coisa para estes senhores quando um gajo lhes dá dores de cabeça (pelo simples facto de ser alguém com cabeça) é descartar esse gajo e fazer crer aos outros que é esse gajo é que é um traidor, um vira-casacas, etc. E a forma como o Louçã o fez desilude, quanto mais não seja pela estupidez escancarada da coisa: é algo que vem de alguém que conta com a burrice de quem o apoia.
Adiante: O Rui foi eleito por cinco anos numa lista do BE - em que eu e muitas outras pessoas votaram por lá estar o Rui: a expectativa do BE era eleger 2 deputados. O que fez a diferença (terem sido eleitos 3) foi estar lá o Rui. O Rui não traiu nada daquilo a que se propôs quando aceitou ser candidato (vai ver o tal texto). Logo, o dever do Rui, repito, dever, é manter-se como deputado pelo tempo para que a gente o elegeu. Demitir-se seria, isso sim, uma traição a quem votou nele. O contrato dele é connosco, não é com o Louçã. Ele está no parlamento para trabalhar e não para ser uma peça que o Louçã e dirigentes do bloco manipulam como lhes der jeito.

Nuno Miranda disse...

Eu votei no BE e no seu programa. Só conheci o Rui Tavares depois de eleito. E a questão de lana caprina invocada para saltar para um sítio que já estava à espera dele cheira-me mal. Considero o meu voto perdido, porque não votei no partido do Cohn Bendit. Faz lembrar as mudanças bruscas de partidos dos deputados do fim da monarquia e da 1ª República. Muito mal!