23/02/15

Revisitando a "quebra tendencial da taxa de lucro"

Largamente sobre outro assunto, Krugman escreve "Corporate profits have soared as a share of national income, but there is no sign of a rise in the rate of return on investment. How is that possible? Well, it’s what you would expect if rising profits reflect monopoly power rather than returns to capital."

É possível; talvez até bastante provável. Mas também há outra maneira (e até mais simples) da proporção dos lucros no rendimento nacional aumentar sem a taxa de lucro aumentar (ou até diminuir):

lucros/capital = [lucros/produto]*[produto/capital]

Assim, se o stock de capital aumentar mais depressa que o produto (ou seja, se o rácio produto/capital diminuir), podemos ter ao mesmo tempo aumento da parte do capital no rendimento nacional e manutenção ou até redução na taxa de rentabilidade do capital.

Alterando ligeiramente a fórmula acima:

lucros/capital = [lucros/salários]*[salários/capital]

lucros/capital =[lucros/salários]/[capital/salários]

Transformando em linguagem fora de moda:

taxa de lucro = taxa de mais valia / composição orgânica do capital

Ou seja, com a substituição do trabalho por máquinas (ou talvez por imobilizado incorpóreo, como patentes e afins?) no processo de produção, aumentando o que alguém chamou "composição orgânica do capital", podemos ter ao mesmo tempo aumento da parte dos lucros no rendimento (por outras palavras: "aumento da taxa de mais-valia", "pauperização relativa dos trabalhadores") sem que a taxa de lucro aumente (ou até diminua?).

Não estou a dizer que seja exatamente este mecanismo a ocorrer, mas não me parece que possa ser excluido à partida.

7 comentários:

Libertário disse...

Não deixo de me espantar com a beleza do pensamento esotérico e de como ele nos permite compreender a condição humana e a nossa realidade social...

Nightwish disse...

Aliado a isso há a estagnação de ordenados e o lobbying para a importação de estrangeiros baratos e precários para posições que podiam ser facilmente preenchidas.

Miguel Madeira disse...

Isso não explica a aparente contradição de a parte dos lucros no rendimento nacional estar a aumentar mas a rentabilidade dos investimentos não.

João Valente Aguiar disse...

Miguel,

creio que importa sublinhar que, para o Marx, a taxa da mais-valia tem um primado sobre a taxa de lucro. Não por acaso a taxa de lucro é influenciada por aquela (e pela composição orgânica do capital, que por sua vez também depende da taxa da mais-valia, dado que os bens de capital são produto de processos de trabalho prévios). Sendo assim, se o estado da taxa de lucro é sempre um motivo de atenção para os capitalistas, é bom lembrar que se a taxa da mais-valia continuar a crescer o capitalismo continua a expandir-se, com maior ou menor dificuldade.

Por outro lado, a chamada lei tendencial da queda da taxa de lucro se procura demonstrar a tendência para o aumento constante do trabalho morto sobre o trabalho vivo, também é parte dos imperativos do capitalismo para se continuar a expandir. Ou seja, se mais tecnologia leva, em termos absolutos, a um aumento da composição orgânica do capital (e a uma diminuição unitária de cada bem produzido), um aumento do capital constante também leva a um aumento da produtividade. O mesmo é dizer que leva a um aumento do volume de mais-valia produzida por trabalhador, elevando assim a taxa da mais-valia, o nó górdio da relação de exploração.

Para terminar. As palavras do Krugman são até certo ponto óbvias, mais ainda dado o estado de relativas dificuldades dos pólos ocidentais de acumulação nos últimos 7-8 anos. Será que o mesmo seria aplicado no caso chinês, indiano, entre outros chamados emergentes? É bom lembrar que algumas das maiores empresas mundiais têm sede na China, e parece-me (posso estar errado) que o Krugman se refere sobretudo a empresas sedeadas nos pólos europeu e norte-americano. Ainda uma outra questão. O Krugman refere-se a que tipo de empresas ou a um processo generalizado? É que muitas das empresas que estão no "cutting edge" tecnológico (Apple, Facebook, Google, etc.) não aparentam estar com preocupantes dificuldades na rentabilidade dos investimentos. Ora, o que sempre definiu cada grande ciclo capitalista foi o ascenso de novas empresas e de novos sectores e as dificuldades de manter uma elevada rentabilidade noutras...

João Valente Aguiar disse...

Esqueci-me de mencionar o seguinte na mensagem anterior. Certa esquerda tende a sobrevalorizar a questão da queda da taxa de lucro como se o capitalismo estivesse perto da derrocada final. Essa sobrevalorização cega leva a que um eurodeputado do PCP diga que «A liberalização do comércio internacional constitui um dos pilares do chamado «Consenso de Washington» – a resposta do capital à crise de rentabilidade que o sistema capitalista mundial vem atravessando nas últimas duas décadas e meia» (http://www.omilitante.pcp.pt/pt/334/Economia/936/Algumas-notas-sobre-o-TTIP-(Acordo-de-Parceria-Transatl%C3%A2ntica-de-Com%C3%A9rcio-e-Investimento-UE-EUA).htm). Seria de todo inusitado que um modo de produção global como o capitalismo vivesse numa permanente "crise de rentabilidade" e, afinal de contas, continuaria a crescer e a criar novos negócios, novos sectores de actividade, novos produtos, novos processos de gestão, etc. Nessas tais duas décadas e meia o produto mundial bruto cresceu de cerca de 27 mil milhões de dólares para mais de 75 mil milhões de dólares (dados de 2013 do FMI: http://databank.worldbank.org/data/download/GDP.pdf). Mesmo na última década, e descontando o ano de 2009 em que terá recuado cerca de 0.5%, o produto mundial cresceu sempre acima dos 3% ao ano. Portanto, é estranho que um modo de produção que viveria estagnado e à beira da derrocada tivesse conseguido quase triplicar a riqueza mundial produzida em 25 anos e mesmo com a devastadora crise de 2007-08 consiga continuar a crescer em torno dos 3% ao ano. Claro que se pode obstar, e com toda a razão, que esse crescimento se localiza nos emergentes e nos países em desenvolvimento e que os países mais desenvolvidos têm taxas mais baixas de crescimento. Pois, mas isso só verifica o que disse anteriormente sobre a dinâmica de expansão global das relações capitalistas de produção e sobre a dinâmica de ascensão de novos sectores de produção. No caso geográfico não me refiro a novos sectores no sentido estrito de novos produtos e novas tecnologias mas a novos pólos de desenvolvimento de novos e colossais negócios e investimentos, em cada vez mais locais do mundo.

Quando infelizmente não há ondas internacionais de lutas, certa esquerda prefere "antever" a queda do capitalismo pelo que acha que seria a sua crise interna e que levaria ao colapso final. Para alguma esquerda, e não me refiro ao Miguel, as teses (mal aplicadas e mal compreendidas) sobre a tendência para a queda da taxa de lucro introduzem um viés catastrofista na análise política.

Miguel Madeira disse...

"O Krugman refere-se a que tipo de empresas ou a um processo generalizado? É que muitas das empresas que estão no "cutting edge" tecnológico (Apple, Facebook, Google, etc.) não aparentam estar com preocupantes dificuldades na rentabilidade dos investimentos."

Acho que ele (e, já agora, eu naquele link do "até diminua") está usando a taxa de juro como proxy para a taxa de lucro.

A teoria dele parece ser mais a de que o poder de monopólio das empresas permite-lhes ter rendimentos muuito maiores do que pagam tanto aos trabalhadore como aos investidores, e isso está a causar tanto a redução da taxa de juro (como reflexo das empresas pagarem pouco aos investidores) como o aumento dos lucros (porque a categoria "lucros" engloba tanto o que as empresas pagam aos investidores "passivos" - juros, dividendos - como o que sobra no fim)

http://krugman.blogs.nytimes.com/2013/06/21/rents-and-returns-a-sketch-of-a-model-very-wonkish/

João Valente Aguiar disse...

Miguel,

obrigado pela resposta.