03/08/16

Billy Bragg, o FMM de Sines e o Brexit.

Foto da autoria de Mário Pires 

A actuação de Billy Bragg, a abrir a última noite da 18º edição do Festival de Músicas do Mundo de Sines, foi um momento raro. Não apenas por se tratar de um músico quase sozinho no palco,  recorrendo apenas à  sua guitarra e às suas palavras.  Mas, sobretudo, pelas palavras cantadas e pelas palavras ditas. Bragg é um velho músico inglês que se destacou no período que antecedeu a ascensão de Margaret Thatcher, e do neoliberalismo que ela impôs à Inglaterra no início dos anos oitenta do século passado. Apoiou a famosa greve dos mineiros cuja derrota foi decisiva para o reforço do poder da Dama de Ferro.
Em Sines, Bragg deixou clara qual a sua posição sobre o Brexit, ele que tinha assinado um artigo de opinião em que identificava os promotores do referendo com os libertarianos que dominam a politica americana e europeia. A classe operária será a primeira vitima desse voto, denunciara. A destruição do que resta do estado social é, para ele, a agenda escondida do projecto Brexit. Em Sines confirmou o seu desagrado com as escolhas feitas pelos seus concidadãos. E teceu as comparações oportunas com o Trumpismo crescente do outro lado do Atlântico. São notórias as semelhanças entre o seu discurso e o de Corbyn, o actual líder do Labour.
Gostei sobretudo -além da música- do que disse sobre os males do mundo e em particular sobre o cinismo. O cinismo que leva muitos, a grande maioria, a conformarem-se e a adaptarem-se, impedindo as mudanças de que o mundo necessita.
Não deixa de ser curioso que o tenha feito vem Sines e no FMM. Esse festival que se transformou à escala local, e mesmo à escala nacional, num grande evento, e numa ocasião para celebrar, uma vez por ano, a cidade ocasional [no sentido em que Francesco Indovina se referiu a essa preversa relação] Aquele que foi conceptualizado como um momento para intervir na cidade e ajudar na sua transformação, autonomizou-se do seu contexto politico-social. A cidade é apenas o cenário da intervenção e o suporte para a alocação de recursos financeiros e humanos necessários para viabilizar o evento. A ocasião - repetida ano após ano - não é para a cidade, mas para aqueles - empresários, técnicos, etc - que colaboram na sua realização. Talvez por isso o FMM seja o testemunho festivo dessa degradação da condição urbana do centro histórico da cidade, do seu abandono, da sua desertificação, da sua transformação no local do cenário que não precisa de ser construído.
Talves por isso seja justo considerar que o FMM se transformou, sob a liderança autocrática da anterior gestão municipal, num momento de festivalização da vida urbana que, como disse Walter Benjamim a propósito da estetização da politica, mais não fez do que tentar ajudar a esconder o carácter retrógado, vazio, do projecto politico que tinham para oferecer. Projecto construído com base no poder pessoal reforçado de uma pequena oligarquia agressiva, antidemocrática e servil ao chefe todo-poderoso.  Um eucalipto que ajudou a secar tudo à sua volta.
Mudar isto dá trabalho e obriga a mobilizar competências e vontades várias. Implica querer restaurar na cidade a defesa do interesse público como o objectivo central da politica. Não se resolve, infelizmente, com ajustes directos ou com o fim do FMM,  ou com os messiânicos regressos ao passado. Esse passado negro de caciquismo, autoritarismo e autismo politico, tudo devidamente embrulhado num palavreado de esquerda. Tão pouco se resolve mantendo tudo na mesma. É preciso acabar com o cinismo dominante, reforçado recentemente com a despolitização da vida autárquica. Afinal tudo não passa apenas e só de uma questão de contas e de números, uma inevitabilidade entre muitas outras.
Billy Bragg deixou o alerta: o cinismo impede-nos de fazer as mudanças que são necessárias, torna-nos incapazes para as tarefas que as pessoas resolveram atribuir-nos. Quem sabe se o FMM não cumpriu aqui -uma vez em muitos anos -  a sua função de promotor da mudança de que há muito se tinha depojado.

Declaração de Interesses - fui vereador da CM Sines durante 8 anos e  membro da A.Municipal nos quatro anos anteriores, entre 1989 e 2001. Apoiei, enquanto vereador, o lançamento do FMM e a sua continuidade, do que não me arrependo. São públicas as minhas criticas sobre a cidade e a sua gestão urbanística e politicó-cultural.Quem quiser saber mais pode ver aqui.

PS - porque será que os jornalistas que escrevem sobre o FMM não deixam claro aos seus leitores que viajaram a expensas da organização? Este alerta apenas se aplica aos que beneficiaram dessa condição e que não a esclareceram nos trabalhos que assinaram.




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