20/06/17

Incêndios: Um debate esclarecedor.

Sendo os incêndios uma catástrofe natural - a menos que a ignição seja provocada por meios humanos criminosos - as suas consequências não são de todo naturais. Sobre isso já aqui escrevi repetidamente. Passa-se com os incêndios o que se passa com os sismos, sendo que no caso dos sismos as consequências são vistas à escala dos edificios e no caso dos incêndios elas fazem-se sentir à escala do território.

O debate sobre esta questão tem sido uma conversa de surdos. Quer isto dizer que não tem havido debate nenhum. O que tem acontecido é a adopção de uma orientação politica consensual - o consenso pode ser uma coisa péssima, como sabemos - que, infelizmente para todos nós, tem tanto de consensual como de profundamente errada.

A opção que os sucessivos governos valorizaram foi a do combate. Os seus esforços centraram-se na protecção civil e dentro deste opção, ainda ontem o Secretário de Estado o esclarecia sem tibiezas, todos os esforços são canalizados para a primeira intervenção.

Esta intervenção do secretário de estado aconteceu no Prós e Contra de ontem à noite. Um programa profundamente esclarecedor. De um lado estavam os membros do Governo e das forças que no terreno corporizam toda a estratégia de combate aos incêndios. No outro lado alguns poucos académicos, com destaque para o professor catedrático do Instituto Superior de Agronomia de Lisboa. De um lado o poder  do outro o saber. Afastados por milhões de hectares queimados, centenas de vitimas e milhões de euros consumidos. Quase incomunicáveis, apesar da cordialidade. Com o poder a mostar quão insensível é aos apelos do conhecimento.

Do lado do Governo defendeu-se com tenacidade a estratégia seguida. A aposta no combate, acha o senhor secretário de estado, é inatacável, já que cerca de 99% dos fogos não sobrevivem à primeira intervenção da estrutura operacional. Um resultado estatisticamente esmagador, acha ele, bem como os comendantes que usaram da palavra. Havia na sala um lago consenso sobre os méritos da politica seguida.

Este convencimento com o mérito da politica pública adoptada manteve-se inalterado, pouco importando o que o debate acrescentou. Os efeitos devastadores em termos de vidas humanas e de área ardida foram insuficientes para retirar os representantes governativos das posições onde se encontram ... entricheirados. Nenhuma politica se fará com estas pessoas porque mesmo perante o resultado chocante das suas opções não parecem sequer poder ser assaltados pela dúvida.

Claro que a aposta deve ser na prevenção e numa intervenção permanente e continua na floresta e no território. Claro que o problema estando em parte no poder das celuloses não se resolve acabando com o eucalipto. Claro que há problemas gravíssimos associados à estrutura fundiária e ao facto de se ter verificado um crescente exôdo rural e uma crescente urbanização das geracções mais novas.

Claro que nenhum país sobrevive à rotura sistemática com a cultura profunda e com o conhecimento adquirido ao longo de centenas de anos. Sobretudo quando essa cultura e esse conhecimento eram o fruto de um longo percurso de defesa e de valorização do interesse público. É por isso que nenhum decisor politico aparece a defender a recuperação dos serviços florestais. A classe politica é iminentemente moderna e não olha para o passado, tem os olhos postos no futuro.


Há um problema de fundo com a prevenção. Ela impede os negócios do combate, um pasto fértil que se renova ano após ano. Numa lógica neoliberal o Estado deve ceder o passo aos negócios, ao Mercado, e deve reservar-se  meras funções de cordenação e de regulação. Para que tudo funcione bem deve abster-se de adoptar politicas intervencionistas deixando às empresas a intervenção reparadora e disponibilizando os fundos públicos - pagos com o dinheio dos contribuintes - de que elas se alimentam.
Quando o Mercado entender que retirará mais benefício da prevenção do que do combate, a politica pública mudará e o cluster dos incêndios mudará de orientação mantendo no essencial os mesmos protagonistas.

Há politicas que desde o ínicio da decada de 2000 se mantiveram inalteradas. Esta foi uma delas. Podemos dizer que Portugal foi um País Neoliberal avant-la-lettre e que a esquerda democrática tem muita responsabilidade nessa façanha. Parece ser verdade que ninguém renega aquilo que criou.

PS - este é um debate em que de um lado se colocam os politicos e do outro os especialistas. O que aqui escrevo não beneficia de qualquer dessas protecções. É sempre do lado da cidadania.

Leituras imprescindíveis

Tirar a floresta das mãos do eucalipto, por João Camargo

"(...)E continuará a haver fogos, mas menos incêndios catastróficos. Está na nossa mão fazer com que sejam menos violentos e menos frequentes. Para isso temos de tirar o apoio às celuloses e dá-lo às populações. E investir num futuro que não voe à vontade dos desejos de uma indústria que prolifera na decadência."


Como passámos a ter estradas onde corremos o risco de ser incinerados, por Jorge Paiva

"(...)Com as montanhas ocupadas por eucaliptais, deu-se o êxodo rural pois, como os eucaliptos são cortados periodicamente de dez em dez anos, o povo não fica dez anos a olhar para as árvores em crescimento sem ter mais nada que fazer. Assim, o povo, além do abandono rural a que foi “forçado”, ficou ainda numa dependência económica monopolista, um risco para o qual não é, nem nunca foi, alertado. Desta maneira, as nossas montanhas passaram a estar cobertas por florestas mono-específicas, com árvores altamente inflamáveis (o pinheiro por ser resinoso e o eucalipto por ter produtos químicos aromáticos, arremessando ramada inflamada à distância, por esses produtos serem voláteis e explosivos).(...)"

19/06/17

Ganância extrema. Uma explicação simples. II

O incêndio que terá morto cerca de 62 pessoas em Pedrógão Grande, tem uma explicação simples, sintetizável numa só palavra: desprezo.

Desprezo pela vida dos outros sobretudo se esses são os mais pobres. Desprezo que é directamente proporcional à ganância que anima os agentes cuja intervenção possibilita este tipo de tragédias.

O desinteresse a que os sucessivos governos promoveram o equilíbrio ecológico da floresta, e a sua aposta na visão da floresta como fonte de lucro imediato levaram a que os incêndios se tenham tornado na maior ameaça pública dos últimos anos.

Não foi por acaso que o partido Os Verdes incluiu, a quando da negociação do seu apoio parlamentar ao actual governo, como uma das sua principais exigências, a reversão da Lei do Eucalipto aprovada pela anterior governo, no que tem sido apoiado principalmente pelo Bloco de Esquerda, e consequente implementação de medidas que permitam parar e reverter a expansão do eucalipto. No entanto, após o ataque cerrado pela industria da pasta do papel à aprovação em Conselho de Ministros duma proposta de lei que substituiria a Lei do Eucalipto, apesar desta pouco mais fazer do que proclamar a necessidade de parar a expansão do eucalipto, o silêncio tem sido ensurdecedor. Aparentemente, a proposta de lei está parada na Assembleia da República, permitindo assim (propositadamente?!...) o plantio de vastas áreas de eucalipto antes da Lei do Eucalipto ser revogada.

Haverá outras medidas, de impacto mais imediato, que ajudarão a minorar o impacto dos incêndios que recorrentemente atingem o território português. Mas são todas meros paliativos enquanto não for reposto o equilíbrio ecológico da floresta portuguesa, revertendo as áreas ocupadas pelo eucalipto e o pinheiro bravo (outra espécie que constitui um perigo quando da ocorrência dum incêndio, devido a também ser altamente inflamável) em favor das espécies de árvores que constituíam a floresta portuguesa antes da sua industrialização. Não só tal floresta era mais resistente à propagação do fogo, como também era muito mais rica em biodiversidade e do ponto de vista económico para as populações locais.

Se o incêndio que devastou Pedrógão Grande foi tão destruidor isso deve-se a razões claramente imputáveis ao homem. Não se tratou de nenhum azar, nem de nenhuma catástrofe natural. Os azares são o que sobra depois de todos terem feito aquilo que é exigido e que o conhecimento técnico possibilita. Como muito bem descreve a Quercus, há décadas que é conhecido o perigo que representa a expansão do eucalipto em Portugal. Perigo sob a forma de enormes incêndios, que se propagam de forma vertiginosa. O eucalipto é a espécie de árvore que desenvolveu mecanismos mais sofisticados de protecção em caso de incêndio, e de maximização da sua reprodução após um incêndio. O eucalipto precisa de incêndios recorrentes para se reproduzir e expandir, pois não consegue crescer facilmente no meio de coberto vegetal. Aliás, é provável que várias características do eucalipto tenham evoluído de modo a fomentar e agravar a ocorrência de incêndios: uma imensa produção de matéria altamente inflamável, que se deposita no solo à espera da mais pequena faísca; casca que, quando em chamas, se solta facilmente, propagando o incêndio até grandes distâncias; óleos altamente inflamáveis que aumentam extraordinariamente a velocidade de propagação dum incêndio, transformando-o numa autêntica tempestade.

Este acontecimento terrível foi, apenas e só, uma consequência de incúrias várias e de um equilibrio funesto, em que de um lado se coloca o lucro que se pode obter e do outro a segurança das pessoas. Fazendo a balança pender assustadoramente para o lado do lucro.

Nota: Este post recupera o título, e adapta parte do excelente texto que o José Guinote aqui escreveu recentemente. Fi-lo porque acho importante estabelecer o paralelismo, para que se torne mais óbvio o padrão comum, que é bem resumido pela última frase, da autoria do José Guinote.

18/06/17

A tragédia de Pedrogão Grande. Trovoada Seca.

A razão para esta terrível carnificina já foi encontrada: razões meteorológicas, com destaque para as Trovoadas Secas.
Enquanto a [ainda] ministra da Administração Interna não se recorda do nome das duas  povoações que foram evacuadas ao início da tarde, talvez valha a pena ler o que aqui se escreve. E recordar o que se escreveu , faz agora um ano, quando da tragédia que ameaçou queimar o Funchal.

PS - depois das tragédias é sempre o tempo para tratar dos feridos, enterrar os mortos e ajudar os familiares e as comunidades. O tempo de passar da lamentação para a discussão das politicas e desta para a tomada de medidas concretas nunca chega. A voracidade da agenda não dá tempo para se chegar a esse tempo.
O que escrevi nessa altura pode ser agora repetido. As catástrofes não pararam, nem a inércia dos decisores politicos, nem tão pouco se mudaram as politicas. Estão reunidas todas as condições para tudo continuar como até aqui.

16/06/17

Ganância extrema. Uma explicação simples.



O incêndio que terá morto cerca de 100 pessoas em Londres, tem uma explicação simples, sintetizável numa só palavra: desprezo.

Desprezo pela vida dos outros sobretudo se esses são os mais pobres. Desprezo que é directamente proporcional à ganância que anima os agentes cuja intervenção possibilita este tipo de tragédias.

O desinvestimento que os Conservadores promoveram na habitação, enquanto politica pública, e a sua aposta na gentrificação e na expulsão dos mais pobres para as periferias - aposta que os trabalhistas com Blair já tinham iniciado - levaram a que o desinvestimento neste sector fosse uma imagem de marca dos últimos anos.

Não foi por acaso que Corbyn apostou numa nova politica de habitação liderada pelo Estado. Não se tratava apenas de construir mais casas, trata-se de rever o conjunto de regulamentos e intervir na definição dos preços, limitando a ganância e impondo as boas prácticas. Penalizando quem actua desprezando a segurança dos cidadãos apenas com o objectivo de maximizar o lucro.

Se o incêndio que devastou a torre  - no essencial habitada por pessoas de baixos rendimentos, por imigrantes,  ou por estudantes universitários, alguns dos quais estrangeiros - foi tão destruidor isso deve-se a razões claramente imputáveis ao homem. Não se tratou de nenhum azar, nem de nenhuma catástrofe natural. No processo de edificação já se sabe que os azares são o que sobra depois de todos terem feito aquilo que é exigido e que o conhecimento técnico possibilita. E já desde Alberti que se sabe que esgotando as possibilidades que o conhecimento técnico nos permite sobra muito pouco para os azares.

Este acidente terrível foi, apenas e só, uma consequência de incúrias várias e de um equilibrio funesto,  em que de um lado se coloca o lucro que se pode obter e do outro a segurança das pessoas. Fazendo a balança pender assustadoramente para o lado do lucro.

Ou,  talvez até mais, consequência de o Estado, obrigado, até por vários relatórios, a preparar uma resposta técnico-politica que evitasse  a catástrofe que se anunciava, ter optado por nada fazer.

Os governos conservadores afastaram os municipios, e os técnicos mais qualificados, dos problemas da habitação,  delegando esse poder nas empresas, e nos negócios, e naqueles que na área técnica se posicionam habilmente nesta cadeia produtiva, que dispensa a capacidade técnica e o rigôr na actuação, considerando-as mesmo um empecilho. A escolha de uma solução de revestimento mais barata ainda que mais inflamável, e certamente mais bonita, passe a subjectividade do conceito, é feita neste contexto.

É por outro lado fruto de uma "evolução" em que a segurança das construções é colocada num patamar de irrelevância face a outros "atributos", Neste caso valorizou-se muito a eficiência energética - há financiamentos comunitários para melhorar este aspecto do comportamento dos edificios -  e o embelezamento geral do edificio. Intervenções que se articulam muito bem com um tipo de intervenção marcada pela negligência.

Gastaram-se onze milhões de euros a "reabilitar" o edificio. Reabilitar tem aqui um significado chocante, como acontece muitas vezes. . Foram onze milhões de euros que não impediram, antes terão ajudado, à morte de  mais de cem pessoas e que ajudaram a arruinar a vida de muitos mais.

Certamente não se investiu um chavo, nos aspectos mais importantes da engenharia, como a segurança estrutural, a resistência ao fogo dos materiais utilizados, e  sobretudo na avaliação de como as intervenções parcelares funcionavam se olhadas globalmente.
Caminhos de evacuação, sistemas de alarme, meios de primeira intervenção ao nível de cada piso, formas de intervenção exterior de combate ao incêndio, nada disso existia com a eficácia que era necessária. Não estavam minimamente acauteladas. Pese embora a resposta rápida dos bombeiros o avanço do fogo foi muito mais veloz. O edificio era ele próprio um imparável rastilho à espera da primeira ignição.

Razão tinha o deputado trabalhista, David Lammy, quando afirmou logo após o incêndio que estávamos perante um homícidio perpetuado pelas empresas e entidades envolvidas e que deveria haver consequências e gente responsável deveria ser presa, julgada e condenada. Talvez por isso o Labour quer que um conjunto de questões sejam discutidas.

As sociedades mais desiguais - e o Reino Unido é hoje a sociedade mais desigual da União Europeia - tratam assim os seus cidadãos. Aos poderosos dificilmente lhes acontecerá uma carnificina assim. Os mais pobres e os remediados nunca estão a salvo da avidez de muitos e da cumplice incúria do Estado.

ACTUALIZAÇÃO (17.06.2017- 11H)  -  A propósito dos efeitos da austeridade e da sua contribuição para este tipo de catástrofes o relato de quem trabalhou para a empresa que geria o parque habitacional no qual se inclui a Grenfell Tower.





13/06/17

Possibilidades e propostas para um outro futuro



Este projecto pretende apresentar e discutir modos de organização colectiva capazes de se afirmar como verdadeiras alternativas ao capitalismo, hoje hegemónico sob diferentes formas. Uma das suas mais interessantes contribuições é a reunião de 24 textos que procuram descrever esses futuros distintos e possíveis caminhos para lá chegar:

Diversifying public ownership, andrew cumbers
Cooperative commonwealth & the partner state, john restakis
Navigating system transition in a volatile century, michael t. lewis
The joyful economy, gus speth
Cultivating community economies, j.k. gibson-graham, j. cameron, k. dombroski, s. healy & e. miller
Earthland: scenes from a civilized future, paul raskin
The economy for the common good, christian felber & gus hagelberg
The promise of a million utopias, michael shuman
Towards a new, green economy, peter a. victor & tim jackson
Six theses on saving the planet, richard smith
What’s next? Parecon, or participatory economics, michael albert
Well-being economy: a scenario for a post-growth horizontal governance system, lorenzo fioramonti
Start with worker self-directed enterprises, richard d. wolff
The good society, henning meyer
Democratizing wealth: a next system model for the u.s. south and beyond, ed whitfield
The new economy: a living earth system model, david korten
Commoning as a transformative social paradigm, david bollier
Building a cooperative solidarity commonwealth, jessica gordon nembhard
Toward democratic eco-socialism as the next world system, hans a. baer
A civic economy of provisions, marvin t. brown
Social democracy, lane kenworthy
Economic democracy, david schweickart
Participatory economics and the next system, robin hahnel
Whole systems change, riane eisler

10/06/17

Corbyn e a a social-democracia.Regresso às origens?

Uma questão de fundo suscitada pelo desempenho do Labour, sob a direcção de Corbyn, é a de saber se estamos apenas e só perante um regresso às origens da velha social-democracia europeia. Na formulação de Daniel Oliveira a esquerda recupera quando deixa de contrariar a sua natureza. Contrariar a sua natureza é, afinal, aquilo que os partidos socialistas andaram a fazer desde que, com o advento do neoliberalismo, se deixaram seduzir pela cantilena do Mercado e resolveram experimentar novas formulações politicas das quais a Terceira Via se revelou a mais mortífera.

Tendendo a concordar com a análise de Daniel Oliveira acho, no entanto, que a proposta do Labour, que Corbyn ajudou a recuperar da irrelevância politica, é bastante mais do que o regresso às origens.

Em primeiro lugar a experiência politica da social-democracia europeia, depois de décadas de prosperidade, de reconstrução da Europa pós segunda-guerra, da construção de um Estado social europeu, e de redução das desigualdades entre os cidadãos, começou a definhar quando as suas lideranças políticas começaram a emular o projecto politico neoliberal. Projecto que, no essencial, defendia um estado mínimo e uma redução ao mínimo possível da função redistributiva do estado.

A aposta nas virtudes do Mercado era justificada pela convicção de as vantagens associadas à intervenção pública na economia serem largamente prejudicadas pelos custos associados em termos de eficiência e eficácia. Estávamos, sabemos hoje, no domínio da pura propaganda, nunca verificada na realidade, pese embora alguns surtos pontuais de progresso. O mundo neoliberal e globalizado conduziu-nos quase sempre a sociedades  mais injustas e a uma maior desigualdade na distribuição da riqueza. O famigerado efeito do trickle-down nunca se confirmou, como Keynes previra,  e mesmo assim os social-democratas não deixaram de percorrer o caminho que os foi conduzindo ao abismo.

A social-democracia passou a ver com bons olhos a acumulação desigual da riqueza - há declarações várias de Tony Blair, e de muitos outros, sobre isso - na perspectiva de que isso iria permitir aumentar o investimento e, através da criação de emprego, promover à posteriori essa função redistributiva. Paralelamente o discurso politico passou a enfatizar a importância do crescimento da economia e da formação dos trabalhadores. O crescimento passou a ser o alfa e o ómega do progresso. A formação passou a ser uma condição prioritária  de acesso aos benefícios de  uma sociedade governada pela meritocracia.

Duas falácias escondiam-se por detrás destes "trocadilhos" que ainda hoje campeiam no discurso dos socialistas.

O crescimento no quadro de uma desigualdade crescente e com o Estado subjugado ao Mercado apenas consegue alimentar essa desigualdade e torná-la mais tolerável. Ainda que medidas pontuais possam momentaneamente dar a sensação que estamos a combater a desigualdade o balanço entre o deve e o haver caracteriza-se, mostra-o a história dos últimos trinta anos,  pelo agravamento estrutural dessa desigualdade.

A meritocracia, no quadro de um ensino cada vez menos universal e cada vez menos gratuito, é uma fraude. Fraude ao serviço dos mais poderosos e que ajuda a perpetuar as condições de desigualdade. O sistema de propinas e os mecanismos de Bolonha tornam a formação um investimento que não está acessível a todos. Uma ou outra excepção são afinal a regra da mercantilização do acesso de que o sistema se alimenta.

A desigualdade social que aumentou brutalmente desde então, foi mitigada pelo recurso ao crédito. Alguma direita critica o crédito fácil identificando-o com uma cedência do Estado a uma pulsão consumista dos cidadãos. Sabe-se que esta análise é falsa e que com ela querem esconder que o crédito fácil foi o único recurso ao serviço do capital para  manter o consumo  em níveis  elevados. Sem um nível de consumo adequado o investimento capitalista não obtêm os lucros e as mais-valias que lhe permitem aumentar o stock de capital e continuar a reinvestir. Este sistema opera no quadro de uma economia que assenta na desigualdade e a promove.

A social-democracia passou a olhar os cidadãos como consumidores e promoveu a despolitização da cidadania. As próprias cidades passaram a ser entendidas como objectos consumíveis no quadro da especulação associada à financeirização do imobiliário. Os cidadãos foram segregados num complexo processo que actua politicamente afastando os trabalhadores da urbe, retirando-lhes a sua condição revolucionária de urbanos, atomizando-os no espaço, e promovendo uma geração brutal de mais-valias  com o consumo dos solos das periferias urbanas.
O processo politico burocratizou-se  e tornou-se um assunto das elites que, na maioria dos casos, viram o seu sucesso associado ao facto de representarem os interesses dos grandes grupos económicos e do sistema financeiro, mais do que por agirem em defesa dos cidadãos.

Os cidadãos foram afastados da politica facilitando a emergência de novos mecanismos de dominação e de opressão.  A social-democracia europeia ao mimetizar o neoliberalismo, pretendendo conferir-lhe uma dimensão social, pretendendo humanizá-lo, não fez, em muitos casos, mais do que o trabalho sujo da direita, criando as condições para que a governação se fizesse "for the Fews, not for the Many".

Mais recentemente um novo passo foi dado neste processo com os cidadãos já de si sacrificados por décadas de exploração a serem chamados a através dos seus impostos pagarem os erros cometidos pelos seus exploradores.

Corbyn rompeu com esse status. Fá-lo de uma maneira sem paralelo na história recente.

Não há memória de um partido socialista europeu ter rompido com a governação dominante no pós-fordismo. Nenhum partido socialista - muito menos com possibilidades de governar um país como o Reino Unido - se propôs governar com um programa como o proposto pelo Labour. Programa que assenta nalgumas ideias fortes.
Em primeiro lugar  renacionalizar sectores estratégicos da economia. Energia, Transportes, Bancos, Correios, entre outros.
Em segundo lugar assegurar o caráter gratuito e universal de vários serviços públicos como a Educação e a Saúde. Acabando com as propinas no ensino superior, garantindo o acesso gratuíto, impondo a gratuitidade dos livros e do material escolar no ensino básico e a alimentação às crianças necessitadas, que são muitas centenas de milhares.
Em terceiro lugar promovendo o maior programa publico de construção de habitação de que há memória nos últimos quarenta anos. Habitação para todos e sem que as pessoas tenham que ser deslocadas das suas comunidades. Controlo público dos solos e dos preços da habitação.
Em quarto lugar equilibrando em torno da riqueza produzida o capital e o trabalho. Aumentando significativamente o salário mínimo, reduzindo as formas de contratação violentas que remetem para novas formas de exploração dos trabalhadores, aliviando a carga fiscal sobre o trabalho, penalizando as empresas mais prósperas e as grandes fortunas.

Corbyn propõe-se devolver ao Estado o seu papel de agente económico em defesa do interesse comum, Devolve-lhe a função de estado produtor acabando com o paradigma do "Estado apenas regulador" que, como sabemos, nada regulou, nada regula, apenas actua tarde e a más horas para legitimar a desigualdade associada à fraqueza crescente da intervenção pública.

Não se trata por isso de um regresso ao passado, trata-se de um passo em frente na direcção do futuro. Um futuro que não quer voltar aos idos do pós-guerra, mas que não ignora os aspectos mais positivos da sociedade de então e muito menos os aspectos nefastos da sociedade actual.
Um futuro que é capaz de inovar, até na forma como mostra capacidade para fazer aquilo que nunca foi feito. Nunca no contexto da sociedade capitalista um programa politico que rompe com os fundamentos da sociedade neoliberal foi tão longe. Corbyn e o Labour são a inovação e a referência para o futuro.

Sem essa mudança na forma de encarar a actividade politica nada disto seria possível. A proposta do Labour é uma revolução feita por dentro do sistema politico, através dos mecanismos próprios da democracia. Rompe com o paradigma dominante nos partidos socialistas que se organizam coo partidos de eleitores e não de militantes.
Para promover uma tão grande revolução é necessário um forte apoio popular. Foi esse apoio que permitiu suportar a liderança de Corbyn e, mesmo num contexto muito agressivo, marcado pelo tempo curto e pelos atentados, construir uma candidatura com tão forte impacto,

Para isso foi fundamental recuperar  o desejo da politica, politizar o dia a dia dos cidadãos, tornar a vida de todos os dias o objecto central da politica, colocar os cidadãos no centro do processo politico. Isso obrigou a um novo estilo de liderança, partilhada, empenhada, comprometida, solidária, fraterna, entendível, humana.

O Labour com Corbyn aponta na direcção desse futuro  e mostra um forte empenho na construção desse espaço politico centrado na importância da cidadania e da justiça social.

Apesar da senhora May estrebuchar em torno dos destroços do seu patético "Stable and Strong" o futuro passa pelo Labour e por Corbyn.


PS  - Um dos derrotados das últimas eleições foi o Hard-Brexit. A senhora May e os conservadores não podem fazer aquilo a que se propunham.

08/06/17

CORBYN. O regresso da política ao serviço do bem comum.



Corbyn não ganhou as eleições mas obteve um resultado extraordinário. Retirou a maioria absoluta aos conservadores, aumentou o número de deputados e viu o Partido Nacionalista escocês perder parte dos seus deputados. 

Nenhum líder trabalhista fez tanto nos últimos anos e em particular numa situação tão dificil. O oportunismo de May e dos conservadores não funcionou.

Corbyn mostrou que é um homem para os tempos dificieis, um líder capaz de enfrentar a tarefa hérculea de tornar a sociedade britânica mais justa. Um homem que olha de frente para a desigualdade e que é capaz de a enfrentar propondo-se acabar com as situações que a alimentam. 

O Manifesto Eleitoral do Labour é um documento nuclear para discutir o futuro da esquerda e o futuro da democracia. Mas é sobretudo um documento nuclear para permitir à esquerda governar com base em politicas públicas justas, construídas para responder às necessidades das pessoas, de todas as pessoas e não apenas de alguns que exercem em seu benefício um poder tutelar sobre a classe politica. Veja-se o caso do sector da energia em Portugal e a forma como ele gere os sucessivos governos - este incluído - e os condiciona e limita em seu benefício. 

Corbyn sai destas eleições como o mais credível líder do Reino Unido para o futuro próximo e isso é um resultado politico extraordinário. Será certamente ele a governar o Reino Unido a muito curto prazo* Um governo do povo e para o povo, capaz de tornar o Reino Unido um país decente, outra vez.

Os cretinos que até ao dia de ontem tratavam Corbyn como semi-atrasado e uma velharia, são apenas isso, cretinos. Sem passado nem futuro, embora com muito poder.

* - Aposto num Governo do Labour apoiado no parlamento pelos restantes partidos com excepção dos Conservadores.

ACTUALIZADO com os resultados da manhã:   O Labour teve menos 2,46% dos votos do que os Conservadores. Estamos a falar de 792 mil votros num universo de 25 milhões, disputado taco a taco pelos dois partidos. O sistema eleitoral permite que estes 2,46% se traduzam num número muito significativo de deputados. Da mesma forma os nacionalistas escoceses, com apenas 3,04% dos votos, isto é menos de um milhão de votos, conquistam 35 deputados, já que o seu voto é fortemente concentrado na Escócia. A perda de votos do SNP é a segunda boa notícia para Corbyn. Com um SNP forte dificilmente o Labour poderá ganhar eleições. 

07/06/17

Uma candidatura de propostas. O que é a Politica de Habitação do Labour de Corbyn? (actualizado)

O que é paradoxal na candidatura de Corbyn é que ela foi construída com base num programa que é uma sólida e coerente proposta politica de governação.
Com base no mais radical e progressista Manifesto Eleitoral dos últimos quarenta anos o Labour propõe-se governar. Governar devolvendo esperança aos cidadãos. Governar para todos e não apenas para alguns. Georges Monbiot, que um mês atrás tivera a coragem de afirmar que o destino do Labour não estava traçado, salienta agora, dois dias antes das eleições, que a principal força de Corbyn radica no carácter das suas propostas, mais do que nas denúncias que faz ou na oposição à politica dos conservadores.


A politica de habitação é um desses campos e foi, desde que assumiu a liderança do Labour, uma das bandeiras de Jeremy Corbyn.
A crise da habitação no Reino Unido é um caso de estudo que, como acontece habitualmente, tem sido pouco estudado. Tratando-se de um país em que se lidera com o Mercado no altar das decisões politicas -  assistido devotamente pelo Estado na sua versão libertariana, reduzido ao mínimo dos mínimos - pensar-se-ia ter a mão invisível, que Adam Smith teorizou  nos primórdios da época vitoriana,  conduzido a questão da habitação à condição de um não problema.

Mas não foi assim. Com a liderança dos conservadores, depois de um período igualmente lamentável liderado pelos trabalhistas da terceira via, a questão da habitação tornou-se um dos principais problemas com que se deparam os britânicos.

Corbyn devolve ao Estado a resolução do problema que o Estado criou por omissão. Ao delegar no Mercado a resolução do problema da habitação o Estado traiu os cidadãos e negou-lhes, em centenas de milhares de casos, o direito á cidade. A deslocalização da habitação não é uma palavra vã no Reino Unido. O carácter segregado da oferta de habitação a custos controlados - a pouca que há - não é uma palavra vã no Reino Unido.
A negação do direito à cidade não é uma palavra vã.

A proposta politica para a habitação é um documento sério e um documento de uma enorme importância politica.
Em síntese o que propõe afinal o Labour?

Em primeiro lugar construir um milhão de novas casas no período de uma legislatura. Mas que casas?  Que  casas a que custos para que famílias?
Por ano serão construídas 100 mil novas casas a custos controlados para arrendamento social ou para famílias carenciadas.

Labour will establish a new Department for Housing to focus on tackling the crisis and to ensure housing is about homes for the many, not investment opportunities for the few. Labour’s new housing ministry will be tasked with improving the number, standards and affordability of homes. 

Dar aos municipios capacidade na promoção da oferta de habitação de que as comunidades necessitam. Trata-se de retirar todas as limitações que identificam a despesa com a habitação com o nível de endividamento dos munícipios. Uma restrição que também foi aplicada em Portugal, como se sabe. Articular o planeamento com a habitação - uma ideia verdadeiramente de esquerda que a esquerda portuguesa, por ignorância, tem dificuldade em perceber - garantindo oferta de habitação para todos de uma forma integrada e devolver ao Estado os serviços que tratam do registo de propriedade e das questões cadastrais.

Defender a posse pública do solo e defender a função dos municípios como proprietários de habitação social e como senhorios. Impor o principio da manutenção do stock público de habitação acabando com a tendência para os municípios alienarem a habitação pública. Colocar um ponto final na funesta politica do "right to buy"uma herança de Thatcher reescrita de forma ainda mais agressiva por Cameron.

More council homes have been sold off under the Conservatives and only one in five have been replaced, despite long housing waiting lists. Labour will suspend the right-to-buy policy to protect affordable homes for local people, with councils only able to resume sales if they can prove they have a plan to replace homes sold like-for-like.

Construir mais, mas construir melhor, com níveis mais elevados de construção e de isolamento e com uma relação entre as áreas úteis e o número de moradores mais adequada.  Construir com uma força de trabalho mais qualificada, com melhores salários na industria da construção.

Controlar o preço das rendas e das novas habitações e banir as agências que especulam com as rendas e que operam no sentido de as inflacionar. Abolir as decisões dos conservadores que acabaram com os benefícios no acesso à habitação atribuído aos  adquirintes mais jovens.

Alguém será capaz de encontrar um programa politico com esta amplitude e esta clareza de princípios e de objectivos? Se encontrar pode vir aqui divulgá-lo. Eu não conheço nada assim no passado recente.

PS- apesar dos atentados, apesar da campanha ignóbil dos Tories, que visa estabelecer uma correlação entre os autores dos atentados e Corbyn, apesar da imprensa hostil, aposto na vitória de Corbyn. Apesar do crescente impacto da candidatura do velho socialista nenhuma sondagem lhe atribui a vitória.
No entanto, há uma força que emerge da proposta politica dos trabalhistas e da liderança partilhada de Corbyn que está a mobilizar os cidadãos e por cujos resultados espero no dia 8 de Junho.

Afinal, limito-me a partilhar a esperança que conquista milhões de britânicos: esperança num mundo melhor e numa melhor democracia.

ACTUALIZADO.  O Daily Mail desce a um nível grotesco. O jornal dedica 13 páginas a associar Corbyn e os seus camaradas mais destacados nesta campanha aos terroristas. Terrorismo puro ou um exemplo práctico de como os tablóides ao serviço dos interesses financeiros dos seus proprietários são uma ameaça terrorista que todos os dias vitima a democracia.

Do outro lado vale a pena ler a posição tomada pelo Guardian de apoio ao voto no Labour. Apesar de o jornal não ter resistido a manifestar desde cedo a sua descrença na liderança e nas ideias de Corbyn foi justo ao tomar uma posição determinada pela análise dos factos.


05/06/17

A crise no Golfo Pérsico

A respeito da rutura da Arábia Saudita e dos outros emiratos do Golfo com o Qatar, dá-me a ideia que o Médio Oriente está dividido em três blocos:

- O bloco Irão-Síria, apoiado pela Rússia

- O bloco Arábia Saudita-Egito-Emiratos Árabes Unidos, apoiado pelos EUA (e provavelmente também por Israel, embora todas as partes provavelmente negarão qualquer ligação)

- O bloco Turquia-Qatar

A relação entre os 3 blocos é complicada (e até ontem à noite o segundo e o terceiro podiam ser vistos como sub-blocos de um bloco comum): na Síria e (até ontem) no Iemén o segundo e o terceiro estão do mesmo lado contra o primeiro, mas Líbia o que há é uma guerra entre os aliados do segundo e do terceiro (os aliados naturais do primeiro bloco seriam provavelmente os apoiantes de Kaddafy, mas parecem não terem importância).

Para quem cresceu nos anos 80, o primeiro bloco parece-me o herdeiro do que na altura se chamava os "radicais" (Argélia, Líbia, Síria, Iraque, Irão e Iémen do Sul) e o segundo dos "moderados" (Egito, Jordânia, Arábia Saudita e emiratos do Golfo); o terceiro é que é a novidade.

Já agora, interrogo-me se a rutura Arábia Saudita - Qatar não terá sido o resultado da visita de Trump, estilo "façam qualquer coisa para mostrar que estão contra o terrorismo"; as monarquias do Golfo têm todas as mão sujas, mas singularizar aquela que tem laços mais visíveis com a Irmandade Muçulmana (e, para bónus, um país fraquinho) talvez seja a maneira das outras darem a entender que elas são boazinhas.

Theresa May e a internet

Theresa May wants to ban crypto: here's what that would cost, and here's why it won't work anyway (Boing Boing):
This, then, is what Theresa May is proposing:

* All Britons' communications must be easy for criminals, voyeurs and foreign spies to intercept
* Any firms within reach of the UK government must be banned from producing secure software
* All major code repositories, such as Github and Sourceforge, must be blocked
* Search engines must not answer queries about web-pages that carry secure software
* Virtually all academic security work in the UK must cease -- security research must only take place in proprietary research environments where there is no onus to publish one's findings, such as industry R&D and the security services
* All packets in and out of the country, and within the country, must be subject to Chinese-style deep-packet inspection and any packets that appear to originate from secure software must be dropped
* Existing walled gardens (like Ios and games consoles) must be ordered to ban their users from installing secure software
* Anyone visiting the country from abroad must have their smartphones held at the border until they leave
* Proprietary operating system vendors (Microsoft and Apple) must be ordered to redesign their operating systems as walled gardens that only allow users to run software from an app store, which will not sell or give secure software to Britons
* Free/open source operating systems -- that power the energy, banking, ecommerce, and infrastructure sectors -- must be banned outright

Theresa May will say that she doesn't want to do any of this. She'll say that she can implement weaker versions of it -- say, only blocking some "notorious" sites that carry secure software. But anything less than the programme above will have no material effect on the ability of criminals to carry on perfectly secret conversations that "we cannot read". If any commodity PC or jailbroken phone can run any of the world's most popular communications applications, then "bad guys" will just use them. Jailbreaking an OS isn't hard. Downloading an app isn't hard. Stopping people from running code they want to run is -- and what's more, it puts the whole nation -- individuals and industry -- in terrible jeopardy.

04/06/17

O ataque em Londres. Serão os resultados alterados?

Não há forma de evitar a relação entre estes ataques consecutivos e a emergência da candidatura do Labour cada vez mais próxima de vencer as eleições.
Trata-se de uma tentativa de condicionar os resultados eleitorais e de condicionar o funcionamento da própria democracia. Trata-se de uma tentativa de colocar o medo no centro da politica. Trata-se de uma tentativa de agredir o líder trabalhista, identificando-o, como tem feito May desde o primeiro atentado, com os atentados.
A resposta de Theresa May alimenta e justifica estas preocupações. Uma resposta sem sentido, uma resposta errada, como salientou o Guardian numa posição sobre o assunto.
Talvez por isso a resposta de Corbyn tenha sido tão rápida e eficaz. Recordando que as politicas austeritárias que May promoveu quando esteve no Governo e desempenhou funções na Administração das forças policiais se traduziram em cortes e no despedimento de 20 mil agentes.
Há uma tentativa dos conservadores de adiar as eleições e de instalar uma espécie de estado de sitio.
Pelos vistos com uma mãoznha do alucinado do outro lado do Atlântico.

02/06/17

O apoio de Bernie Sanders a Jeremy Corbyn.

Bernie Sanders apoia Corbyn embora diga  que o líder trabalhista não precisa dele. O que me parece mais importante é salientar dois políticos que elegeram o combate à desigualdade chocante e a construção de uma sociedade mais justa, uma sociedade para todos e não apenas para alguns, como o objectivo central da politica.
Dois veteranos das causas supostamente perdidas, das lutas que não garantem carreiras brilhantes e poder pessoal em doses superlativas, dos que primaram sempre por colocar-se do lado dos mais necessitados. Dois políticos ostracizados pelos média e arrumados no lado sombrio dos velhos e dos sem préstimo.
Dois homens que estão a revolucionar o socialismo democrático e a revitalizar a social-democracia libertando-a das teias de aranha que a tornaram numa triste cópia do reaccionário neoliberalismo.

Uma vitória de Corbyn e um governo trabalhista no Reino Unido, capaz de aplicar o seu Manifesto, ajudará a reconstruir a esperança no futuro, por toda a Europa e pelo Mundo. Talvez Sanders ainda tenha uma palavra a dizer no futuro dos US pós-Trump. As suas ideias garantidamente irão desempenhar um papel nesse futuro.

01/06/17

"Já não se pode dizer nada!"

O que a patrulha do anti-politicamente correto (os tais que estão sempre a reclamar que "já não se pode dizer nada que fica logo tudo ofendido!") achará disto?

31/05/17

Uma versão da Geringonça para governar o Reino Unido?

Pela primeira vez uma sondagem retira a maioria absoluta aos Conservadores. Pela primeira vez é possível formar um Governo do Labour com apoio parlamentar - uma reedição da geringonça, mas com uma politica muito mais à esquerda - ou um Governo de coligação liderado pelo Labour e com Corbyn como primeiro-ministro.
A recusa de May em participar no debate eleitoral  que esta noite reuniu todos os líderes partidários é mais um prego no caixão da funesta estratégia eleitoral dos conservadores.[deus seja louvado, eu que não sou crente]
Tempos excitantes na terra de sua majestade.

30/05/17

Corbyn e a Liderança. Uma questão de fundo.

Eu não sou um ditador, repetiu Corbyn na entrevista que "partilhou" com Theresa May. Acusado de não defender pontos de vista que o Manifesto Eleitoral defende, Corbyn respondeu desta maneira.


26/05/17

A afirmação eleitoral de Corbyn e do Labour. A importância do Manifesto, ou quem falou da "mais longa nota de suicídio da história".(actualizado)

A campanha eleitoral para as eleições do próximo 8 de Junho no Reino Unido ficou marcada, como não podia deixar de ser, pelo ataque bombista em Manchester que vitimou crianças e adolescentes e determinou a interrupção da campanha eleitoral por alguns dias.

Há claramente um antes e um depois do atentado levado a cabo pelo bombista suicida, nascido e criado em Inglaterra. Até ao atentado a campanha estava ser dominada pela subida contínua dos trabalhistas nas sondagens. O partido trabalhista tinha recuperado um atraso de mais de 20 pontos percentuais - à data do anuncio das eleições gerais antecipadas -  até uma distância de 5 pontos percentuais - ver aqui  -  colocando a hipótese de vitória em cima da mesa.

O que dominou a eleição até ao dia do ataque foi o impacto que os Manifestos eleitorais de cada um dos partidos teve na opinião pública. O Manifesto e o tom adoptado pelas respectivas lideranças para a campanha eleitoral. A disputa eleitoral foi dominada pelas condições de vida das pessoas, da maioria das pessoas, pelas suas necessidades e pelas respostas que os partidos prepararam para elas.

O Manifesto Eleitoral dos trabalhistas representa a proposta politica mais à esquerda apresentada por um partido socialista ao longo dos últimos trinta anos. Trata-se da proposta mais radical de um partido que aposta em transformar a sociedade sem colocar como questão prévia a substituição do sistema capitalista. Trata-se de uma proposta politica que devolve ao Estado a capacidade de intervir activamente na economia, que defende o retorno da primazia do Estado sobre o Mercado e que coloca o interesse da maioria das pessoas no cento da actividade politica.

De forma resumida podemos afirmar que o Labour sob  a liderança de Corbyn rompe com o neoliberalismo que  transformou, desde Thatcher, o Reino Unido na quinta essência da desigualdade e da injustiça social. O slogan que os trabalhistas utilizaram para a campanha é uma síntese perfeita dos objectivos politicos que perseguem: For the Many, not the few.

Combater a desigualdade e devolver a esperança às pessoas. Salvar a democracia. Mobilizando os meios e os recursos onde eles estão. Indo ao coração da desigualdade e actuando de uma forma deliberadamente redistributiva. Através da politica fiscal, através da valorização do factor trabalho, actuando no salário mínimo e nos salários mais elevados, através da intervenção directa do Estado na economia renacionalizando sectores estratégicos da actividade. Impondo a universalidade do acesso ao Estado social, no Sistema Nacional de saúde, no sector da Educação, acabando com as propinas no ensino superior. Muitas destas medidas fotam paulatinamente abandonadas por parte da esquerda com o argumento de que  o acesso universal e gratuíto perpetua as condições de desigualdade existentes na sociedade. Corbyn e os trabalhistas não estão para aí virados. É necessário ser o Estado a garantir o acesso universal, sendo claro quem mais disso beneficiárá.

Um forte investimento na Habitação já que o Reino Unido, ou melhor os seus cidadãos, são vitimas de uma crise sem precedentes neste sector. Os trabalhistas britânicos não precisam de uma Lei de Bases. Optaram por uma politica. Vão construir um milhão de casas no prazo de cinco anos. Com dinheiro público. Casas construídas onde fazem falta, para cidadãos que possam nelas viver sem terem que ser deslocadas para as periferias apenas porque não são dos Happy Few.

Uma proposta politica que foi recebida pela imprensa, largamente dominada pelo pensamento único, e pelos adversários politicos, como um regresso ao passado, como um projecto sem futuro. Na imprensa inglesa, hegemonizada pelos Conservadores, e em Portugal, o Manifesto trabalhista foi classificado como a mais extensa nota de suicídio da história recente. Precipitadamente, diga-se.

Do outro lado o Manifesto dos Conservadores revelou-se um desastre. Trata-se de um documento que exibe uma inusitada violência social e que, sem subterfúgios, aposta na construção de uma sociedade de vencedores e de vencidos, Cada cidadão idealmente para os conservadores deverá  estar perante si próprio, sem qualquer apoio social, sem qualquer papel a desempenhar pelo Estado, vitima apenas e só de si próprio e das boas ou más opções que tomou durante a sua vida. É um projecto politico que dá passos largos no  sentido de consolidar o projecto politico neoconservador.  A  penalização dos cidadãos idosos que tenham que recorrer aos serviços de saúde e de apoio especializado foi o grande destaque do manifesto. A taxa que ficou conhecida como "dementia tax" obrigou May a vir a terreiro tentar negar os seus objectivos - U-Turn.

Um dos momentos mais penosos para a actual primeira-ministra foi a entrevista que concedeu ao jornalista da BBC, Andrew Neil. Por esta altura o partido conservador parecia à beira de um ataque de nervos e como alguns comentadores destacaram o Manifesto eleitoral tinha-se tornado um pesado fardo que ameaçava afundar a campanha eleitoral.

O ataque bombista coincidiu com a passagem de Corbyn pelo crivo de Andrew Neil. Com os acontecimentos de Manchester ainda frescos, o carácter pacifista do líder trabalhista e as suas conhecidas posições sobre o desarmamento nuclear ou sobre as acções miliatres contra países terceiros, forneciam o contexto para um forte aperto a Corbyn.

Mas as coisas não se passaram assim. Numa corajosa tomada de posição prévia o líder trabalhista não perdera a oportunidade de associar os acontecimentos internos aos erros tomados no campo da politica externa.  A entrevista não foi o massacre que se esperava. Corbyn foi confrontado com todas as questões polémicas e saiu com a sua posição reforçada.

Os conservadores apostam tudo no aproveitamento politico dos efeitos preversos do ataque de Manchester. A imprensa britânica reconhece essa deriva estratégica na campanha de May. Podem ser bem sucedidos o que não seria nada de novo. As sondagens imediatamente a seguir ao ataque ainda mostraram o intervalo entre conservadores e trabalhistas a diminuir mas depois disso uma última sondagem mostra que os trabalhistas, pela primeira vez em semanas, recuaram ainda que ligeiramente.

As boas notícias que podem ajudar a atenuar o impacto do atentado e do aproveitamento que os Conservadores dele fazem, é a forma crescentemente positiva como Corbyn é visto pelos cidadãos. O contrário do que se passa com a líder conservadora cujo desempenho na campanha tem roçado o sofrível.

A próxima semana será decisiva para avaliarmos as reais possibilidades de colocar um ponto final no longo reinado Conservador em terras de Sua Majestade. Mais do que isso, será o tempo para sabermos se, pela primeira vez em décadas, um Governo de um país capitalista desenvolve uma  politica de esquerda que constitui uma resposta politica sem paralelo aos desafios colocados desigualdade extrema que mina os alicerces da democracia e do progresso social.

Corbyn, contrariamente ao que aqui se escreve, não ficou a meio da ponte do Brexit. A sua abordagem ao referendo foi límpida e a favor do Remain and Reform. O que foi dúbio foi a forma como se posicionou perante os resultados e a actuação politica posterior que o conduziu para uma posição politica insustentável. May - que "não percebeu o sentimento popular prevalecente" ela que fez campanha contra o Brexit, e que defende um Hard Brexit que é um violento ataque aos direitos dos trabalhadores nacionais e aos imigrantes - julgou ver nessa contradição uma oportunidade para decapitar o Labour e arrasar o seu mais perigoso líder. Saiu-lhe o tiro pela culatra. A acção de May acabou por ser aquilo de que Corbyn necessitava para voltar a colocar a vida das pessoas no centro da politica. É daí que vem o seu reconhecimento e é isso que faz dele um dos mais inspiradores líderes politicos da Europa.

PS - a campanha do Labour e o seu programa politico traduzido no Manifesto ajudam a perceber melhor o que afinal caracteriza o essencial do acordo politico que sustenta a nossa geringonça. Mostra como são ainda debeis e curtos e, por isso, injustos, os caminhos percorridos a inverter a dura politica austeritária que nos empobreceu. Ajudam-nos, também,  a perceber de que méritos falamos quando falamos dos méritos de Centeno  e a controlar melhor as euforias patrioteiras  que espreitam por detrás da promoção do ministro das Finanças ao Eurogrupo, esse não lugar da politica democrática europeia onde se exerce e cultiva o poder alemão.

23/05/17

A reforma constitucional de Manuel Braga da Cruz

Manuel Braga da Cruz, professor da Universidade Católica, parece que vai apresentar uma proposta de "reforma do sistema político", que explicou ao Público:
Considera que “a representação proporcional é propícia à formação de governos minoritários e isso não estimula uma cultura de negociação e coligação”. Não é uma contradição nos termos? Parece acontecer o contrário...

Eu não atribuo a dificuldade de realização de consensos ao sistema proporcional, pelo contrário, ele favorece a consociatividade. A dificuldade de obtenção de consensos não está no sistema eleitoral. O que este provoca é, por um lado, o afastamento do cidadão do eleito – porque se votam listas de deputados escolhidos pelos partidos. Falta a pessoalização do voto, que é uma exigência crescente no sistema português. Por outro lado, o sistema eleitoral não favorece a governabilidade. Defendo um sistema misto, muito semelhante ao alemão.

Quer explicar como é?

Um sistema de círculos uninominais locais para metade do Parlamento com eleição maioritária e um círculo nacional com voto de lista em eleição proporcional para a outra metade. Isso teria a vantagem de melhorar a proporcionalidade, porque esta varia na razão da magnitude das circunscrições. Onde se obtém a melhor e a máxima proporcionalidade é num círculo nacional.
Lendo esta conversa fica sem se perceber se Braga da Cruz defende um sistema semelhante ao alemão ou semelhante ao venezuelano; ele primeiro diz que defende um sistema "muito semelhante ao alemão" mas a descrição que ele dá a seguir parece indicar que ele está a pensar mais num sistema parecido com o da Venezuela (frequentemente chamado de "sistema russo", mas tal não é muito correto, porque a Rússia muda de sistema eleitoral quase de eleição para eleição, e só às vezes usa esse sistema).

A grande diferença entre os dois sistemas - no sistema venezuelano/"russo" parte dos deputados são eleitos por círculos uninominais, e outra parte (30% na Venezuela, embora Braga da Cruz proponha metade) são eleitos proporcionalmente num circulo nacional; no sistema alemão metade dos deputados são eleitos por círculos uninominais e outra metade são apurados num circulo nacional (ainda que depois distribuídos por círculos regionais) de forma a que o TOTAL dos deputados seja proporcional.

Exemplificando - vamos supor um parlamento com 230 deputados, 115 eleitos em círculos uninominais e 115 num círculo nacional.

Num sistema de tipo alemão, se um partido tiver, p.ex., 35% dos votos e for o mais votado em, digamos, 60 círculos uninominais, vai eleger esses 60 deputados e mais uns 20 (35% de 230 menos os 60 já eleitos) no circulo nacional.

Já num sistema de tipo venezuelano/"russo", se um partido tiver 35% dos votos e for o mais votado em 60 círculos uninominais, vai eleger 60 deputados e mais uns 40 (35% de 115) no círculo nacional.

Uma nota - há quem diga que o sistema venezuelano/"russo" é o preferido de ditaduras a fingir que são democracias: a existência de um circulo nacional por lista faz com que os partidos (nomeadamente o dominante) tenham muito mais coesão e disciplina interna (e obediência à direção) do que num sistema uninominal, e ao mesmo tempo  o facto de grande parte dos deputados serem eleitos por círculos maioritários (sem compensação posterior) permite ao partido dominante garantir maiorias (eu tenho a ideia de ter lido algo nesse sentido no blog Fruits and Votes, mas não consigo encontrar).
Num tempo em que os cidadãos reivindicam mais participação na democracia, esta prioridade que dá à governabilidade não entra em confronto com as expectativas dos eleitores?

Penso que não. A democracia é um regime de mandatos. O que se pede de um Governo é que governe, tendo nós em democracia a possibilidade de, depois, pedir contas a esse Governo e de o julgar em eleições. O que se pede é que o Governo tenha força suficiente para impor o interesse público e o bem comum aos interesses particulares. As democracias mais consolidadas do mundo não têm governos derrubados a meio das legislaturas.
Penso que aqui Braga da Cruz está como aquelas pessoas que compram um fato e uma cartola para ficarem ricos; mesmo que nas tais democracia consolidadas não costume haver quedas de governos a meio das legislaturas, isso não quer dizer que, por via de alterações constitucionais, tornar difícil a queda de governos vá fazer com que a democracia fique mais consolidada. Aliás, veja-se que os regimes presidencialistas, onde supostamente é legalmente quase impossível o governo ser derrubado a meio do mandato, são exatamente os países onde os golpes de Estado proliferam

O caso do vídeo do Correio da Manhã

O que dá que pensar neste caso é que tanto o Correio da Manhã como muitos dos críticos do Correio da Manhã coincidem em chamar "violação" a algo que, ao que sei, é praticamente impossível (pelas imagens divulgadas) dizer que foi consentido ou não.

[Nota - eu não vi o tal vídeo, mas é o que ouvi de pessoas que viram o vídeo antes de ser retirado]

19/05/17

O Manifesto do Labour. A resposta à crise da social-democracia europeia?

Corbyn pode não ganhar as eleições. A antecipação das eleições, forçada pelos conservadores, pode não o permitir. Mas há vários factos que estão a acontecer e que já não podem ser ignorados.

Em primeiro lugar o Labour está a conseguir uma mobilização sem precedentes, com os cidadãos a aderirem de forma empenhada às acções de campanha do partido. Essa mobilização passa muito pela empatia que as pessoas estabelecem com o seu líder, Jeremy Corbyn. O não  líder, o velho sem carisma, o esquerdista sem credibilidade, é reconhecido pelos seus concidadãos. Pela sua coerência, pelo seu passado, pela sua atitude relativamente à liderança, pelo facto de defender a participação de todos na politica e porque defende ideias justas e progressistas que dão resposta às necessidades das pessoas.

Em segundo lugar o Manifesto eleitoral (consultar aqui) apresenta um conjunto de propostas politicas que recuperam e revitalizam o essencial da social-democracia europeia, antes da deriva neoliberal que a tornou numa cópia desfocada dos conservadores e da direita neoliberal.

O Manifesto reconhece a transformação do Reino Unido numa  sociedade marcada de forma violenta pela desigualdade e propõe-se alterar profundamente esse estado de coisas. Como?
Devolvendo ao Estado um papel na definição e na liderança da politica económica.
Nacionalizando serviços públicos cuja privatização fcou marcada pela degradação do serviço e pela mercantilização do acesso.
Promovendo uma politica fiscal que constitua uma efectiiva redistribuição da riqueza produzida.
Investindo na recuperação do Serviço Nacional de Saúde, na Escola Pública.
Colocando o Estado a intervir directamente na produção de habitação combatendo a gigantesca crise que afecta milhões de pessoas, ignoradas pelo Mercado e atiradas para as diversas periferias.
Apresentando contas e mostrando onde irá buscar o dinheiro e quem pagará e quanto e quem será beneficiado e como.

A deteminação de Corbyn, a sua sinceridade, a firmeza tranquila que o carateriza, transmitem confiança e esperança às pessoas. Provavelmente não irá vencer as elições. As sondagens dão uma vitória confortável aos conservadores. As próximas semanas ditarão com que linhas se cozerá o futuro próximo do Reino Unido.

Mas Corbyn não será esmagado* nas próximas eleições e irá continuar a liderar os trabalhistas. O futuro parece que irá passar pela sua liderança no Labour e parece jogar a seu favor. Avisados estavam os conservadores quando resolveram antecipar as eleições.

* - Arrisco que o Labour irá obter o melhor resultado eleitoral desde a saída de Blair. Mas há uma vitória que ninguém tira a Corbyn: lançou as fundaçoes para uma nova politica que sirva de base a uma nova esquerda, comprometida com a urgente necessidade de construir  uma sociedade para todos.

16/05/17

O vídeo de campanha do Labour realizado por Ken Loach

Foi hoje divulgado um vídeo de campanha do Labour realizado por Ken Loach.


Um importante documento para a campanha dificil que os trabalhistas enfrentam. Repare-se no número de vezes que Corbyn se refere à desigualdade crescente e à necessidade de a combater. Entretanto, apesar das declarações de que as eleições estão resolvidas, os Conservadores reforçaram a campanha de ataques pessoais ao líder trabalhista. Esta campanha recorre a um conjunto de vídeos que visam difundir a ideia de que estamos perante um perigoso radical cujo Manifesto Eleitoral - o que se conhece dele - nos mostra alguém que não tem os pés na terra. 
Será que Corbyn é assim tão radical? Há claramente quem não defenda essa ideia que a imprensa de direita militantemente divulga.

13/05/17

O Golpe Eleitoral de Theresa May e dos conservadores. Será que o Labour e Corbyn sobrevivem? O que está afinal em jogo?

Toda a gente sabe que Theresa May  ocupou o lugar de primeiro-ministro, em consequência da demissão de Cameron após a vitória do BREXIT, não se submetendo ao voto popular. Toda a gente sabe que May recusou repetidas vezes a realização de eleições antecipadas. Como recorda o Guardian essa recusa veemente prolongou-se até ao passado dia 18 de Abril.
Invocando a necessidade de ter um maior  apoio para a batalha do Brexit, May veio anunciar a realização de eleições gerais antecipadas no dia 8 de Junho.

Todaa gente sabe que a opção foi determinada por puro oportunismo politico. As sondagens davam, à data, uma vantagem colossal aos Tories, em parte fruto das trapalhadas em que Corbyn se deixou enredar depois da derrota do "Remain and Refom" que defendia - timidamente, é justo reconhecer - a permanência na UE e a  reforma do espaço comum europeu.

May não resistiu à expectativa de uma vitória eleitoral próxima e à possibilidade de humilhar o Labour e a  liderança mais à esquerda da sua história recente. Pretendeu retirar tempo ao líder trabalhista para desenvolver as suas politicas e divulgá-las como parecia ser a estratégia por ele adoptada.

Owen Jones teve, por isso, razão quando afirmou que não se pode confiar em Theresa May. Estamos perante uma politica cuja palavra pouco ou nada vale. O oportunismo politico de May, que fez campanha contra o BREXIT, faz dela a primeiro-ministra que lidera uma versão  "Hard-Brexit", que constitui  uma séria ameaça aos direitos sociais dos cidadãos e ameaça privatizar o que resta do sector público. Oportunismo que a levou a desencadear uma feroz campanha centrada nos ataques pessoais a Corbyn -e ao seu carácter pacifista que é apontado como uma ameaça para o Reino Unido - ao mesmo tempo que recusa qualquer debate televisivo com ele. Muitos se interrogam sobre o real significado desta estratégia. Neste sentido a apresentação que Corbyn fez sobre a sua politica externa veio colocar os pontos nos is e desmentir parte das calúnias veiculadas pelos conservadores. Corbyn negou a abordagem dos Tories que ele resumiu na frase  "bombardear primeiro dialogar depois".
Qual a razão para que a actual primeiro-ministra se recuse a realizar acções de campanha abertas optando por sessões em que o acesso é condicionado e os próprios jornalistas têm dificuldade em estar presentes? Medo, é a única resposta adequada. Medo de que, tal como nas repetidas sessões de perguntas ao Primeiro Ministro , Corbyn evidencie as fragilidades da politica seguida pelos Conservadores, agravadas por May, e mostre que há uma alternativa, que ele resume num Reino unido para Todos e não apenas para alguns. Medo de que as sondagens, tão reconfortantes, não traduzam afinal a realidade que as urnas ditarão.

Mas, sejam quais forem os defeitos de May e dos Tories, o Labour tem a responsabilidade de liderar uma alternativa. Um partido que desde as últimas eleições gerais escolheu uma nova liderança que representou um corte com o seu posicionamento politico de décadas, que representa, aliás, uma inequívoca viragem à esquerda, que depois disso viu essa liderança ser questionada internamente a partir dos seus deputados e teve a oportunidade de a reafirmar, que viu o número de militantes aumentar transformando-o num dos maiores partidos europeus, não pode deixar a pairar dúvidas sobre qual a razão pela qual não consegue apresentar-se ao cidadãos como uma alternativa de governo e tão pouco o seu líder é aceite como um potencial primeiro-ministro.

Apesar das propostas que defende, nomeadamente uma economia para todos e o combate à desigualdade, com um conjunto de medidas relevantes, aparentemente isso não o torna mais estimado pelos eleitores.

Já aqui escrevemos sobre os nefastos efeitos que o posicionamento de Corbyn face ao BREXIT teve na sua credibilidade. Ainda agora no arranque da campanha o líder do Labour sentiu necessidade de recusar um novo referendo caso vença as eleições. Apesar do resultado ter mostrado que há uma divisão clara, e uma quase igualdade, entre aqueles que queriam sair e os que defendiam permanecer. Donde virá esta inflexibilidade de Corbyn? Provavelmente das suas convicções profundas sobre a Europa. A ser assim uma das partes mais interessantes do seu discurso politico, a necessidade de reformar a Europa, colocando os direitos dos cidadãos e dos trabalhadores no centro da politica, e o combate ao neoliberalismo instalado nas instituições europeias, era apenas retórica.
Os seus potenciais eleitores não lhe perdoarão politicamente. Cerca de dois terços dos eleitores do Labour votaram pelo Remain, sendo que alguns sectores operários de zonas muito flageladas pela globalização, optaram pelo Brexit.

Arrancou nestes últimos dias a campanha. Depois de dias e dias de uma critica impiedosa ao Labour e ao seu líder, em que se vaticina uma derrota histórica, as coisas parecem começar a mudar um pouco no terreno e no campo do debate politico. Dada a falta de comparência dos Conservadores para esse debate o Labour está a optar pelo contacto do seu líder com os cidadãos um pouco por todo o Reino Unido. Esse é o seu estilo e o que melhor se adapta à sua proposta politica de serem os cidadãos a decidirem do seu futuro, pela participação e  não apenas através do voto.

A forma como a situação está a evoluir no terreno, o crescente debate em torno das propostas do Labour concretizadas no seu Manifesto Eleitoral*, levam alguns a afirmar que o destino do Labor ainda  não está traçado.   A analogia com a campanha de Bernie Sanders é perfeita. Tal como Sanders, Corbyn destaca-se pelas suas convicções, pela sua coerência e pelas suas características,  exaltadas como  negativas pelos média: velho, radical de esquerda, sem carisma, pacifista, internacionalista, em suma inelegível para primeiro-ministro.

O Manifesto do Labour foi objecto de uma inesperada divulgação pública antes de Corbyn o ter divulgado numa convenção marcada para o efeito. A intenção foi mais uma vez desacreditar o líder trabalhista e explorar o efeito presumidamente  negativo de muitas das suas propostas. Ora parece que o tiro saiu pela culatra aos autores do Manifestoleaks. O que está a acontecer é exactamente o contrário. As mais deversas reacções, e as  sondagens, mostram que as propostas que o Labour apresenta sob  a mensagem de campanha " For the Many not the Few" gozam do apoio da maioria dos eleitores. Corbyn não deixou de aproveitar o impacto causado pela divulgação de partes do Manifesto para salientar que as politicas nele impressas irão permitir melhorar a vida das pessoas.

Que propostas assim tão importantes merecem referência no manifesto eleitoral dos trabalhistas?  A nacionalização dos caminhos de ferro, cuja degradação com os conservadores tem sido escandalosa. A nacionalização dos correios e de parte das empresas que constituem o sistema energético do Reino Unido. Além destas medidas o líder do Labour promete abolir as propinas no ensino superior e apoiar as famílias carenciadas na educação dos seus filhos, através de alimentação escolar gratuíta e de acesso gratuito a todo o material escolar.
Outra das medidas emblemáticas do Manifesto é a proposta de uma nova politica de Habitação. Um milhão de novas casas em cinco anos, 500 mil das quais serão "affordable housing" construídas pelo sector público. A crise na habitação é uma das mais trágicas heranças dos governos conservadores. Há milhões de pessoas afectadas por essa  politica. A aposta de Corbyn é um elemento politico fulcral para um partido que defende uma politica alternativa ao neoliberalismo e que quer colocar os interesses das pessoas em primeiro lugar. Trata-se de uma aposta que ajuda a perceber que Corbyn não está apenas no campo da retórica e que quer retirar ao Mercado a liderança da politica devolvendo ao Estado o seu papel líder na condução da economia em benefício de todos os cidadãos. Isso mesmo foi salientado por Owen Jones.
Acresce um conjunto relevante de medidas na área fiscal e da redistribuição da riqueza, com destaque para o aumento do salário mínimo para 10 libras/hora e diminuição da carga fiscal sobre as classes populares acompanhadas do aumento de impostos para os mais bem pagos e para as empresas.

As sondagens mostram a enorme aceitação destas propostas e evidenciam que essa aceitação não se reflecte directamente na aceitação de Corbyn como eventual primeiro-ministro.

Há várias explicações para este facto. Uma delas, admito eu,  é a de que as sondagens sejam incapazes de medir a adesão popular do líder trabalhista, construida com base na sua coerência, na sua honestidade, através de um contacto pessoal, mais lento, mas muito mais eficaz. Trata-se de desconstruir um tipo de liderança em que o líder se coloca acima das massas, inacessível, salvo em ocasiões específicas para glorificar os seus feitos, e propôr em alternativa uma relação face a face, olhos nos olhos, que ajude a promover a participação de todos, em pé de igualdade, na construção das politicas e nas decisões relevantes sobre o futuro comum.
Chomsky, numa entrevista ao Guardian adianta outras explicações; uma hostilidade não disfarçada dos grandes orgãos de informação para com Corbyn; o facto deste não ser um líder carismático, à moda de Obama ou de Tony Blair e outros que, através da palavra, conseguiam electrizar as massas; o facto de ter contra ele a maioria dos deputados do próprio partido que em campanha não apoiam as suas propostas e as sabotam. Isso não impede o pensador americano de apoiar Corbyn e de estabelecer as comparações com Sanders no outro lado do Atlântido.
Claro que na generalidade da imprensa internacional,  de que a portuguesa não é excepção, enfatiza-se o carácter potencialmente catastrófico da actual liderança do Labour. Ignorando a história e a história recente do partido, antes da chegada de Corbyn à liderança. Esse erro não cometeu Ken Loach, o celebrado realizador de I Daniel Blake quando escreveu no Guardian so bra o passado recente do partido. Mas a História não é para todos, muito menos para um jornalismo que não é mais do que a voz do dono.

Mas jogará aqui nestas escassas semanas que nos separam do dia 8 de Junho a opção que muitos eleitores farão acerca da importância do seu voto para impedirem uma vitória esmagadora dos Conservadores com todas as consequências que isso pode acarretar.

O que está em jogo é a possibilidade de um líder politico de esquerda assumir a liderança de um dos maiores partidos socialistas europeus e assumir a liderança de um dos páises mais poderosos e mais desiguais do mundo. O que está em jogo é a possibilidade de um projecto politico que rompe com décadas de submissão ao neoliberalismo mostrar que pode vencer eleições legislativas no coração da Europa do capital, da Europa em que os interesses financeiros se sobrepõem aos interesses das pessoas e os esmagam. Projecto que rompe com a economia da desigualdade, com a submissão do Estado aos interesses do Mercado, que quer colocar os cidadãos no centro da politica e devolver aos cidadãos o direito à cidade. Projecto, como se mostra no Manifesto eleitoral, que é viável sem que isso acarrete um agravamento das contas públicas.

Caso Corbyn vença - o que é dificil mas não impossível - o Reino Unido rompe com décadas de sucessivas lideranças politicas que colocaram em primeiro lugar os interesses dos mais poderosos e agravaem as condições de vida dos restantes. Isso representará uma esperança para a democracia. Não posso deixar de referir como me desagrada  o facto de essa mudança - a acontecer - não ser feita no contexto de um Reino Unido membro da UE. O efeito notável que isso teria numa mudança politica na União e o efeito de contágio sobre os restantes partidos socialistas poderia ser o facto politico mais importante das últimas largas décadas.


*  -  O Manifesto foi alvo de uma divulgação prévia não autorizada. A versão oficial apenas será divulgada na próxima quinta-feira.



12/05/17

Irá Trump implodir o sistema americano?

A América preza muito o seu sistema de "cheks and balances". Por isso não há memória de um Presidente ter, de uma forma tão radical, despedido um Director do FBI. Mas foi isso que Trump fez. Inicialmente Trump pretendeu aproveitar o comportamento de Comey na campanha presidencial - o famoso caso dos emails de Clinton - para justificar a demissão, mas, posteriormente, surgiram outras explicações. Para uns o que terá determinado a decisão do presidente foi o facto de Comey se ter recusado a jurar-lhe  lealdade optando por prometer apenas e só ser honesto. Mas, parece irrefutável que o ex-director do FBI tinha solicitado mais recursos para avançar na investigação em curso sobre a ingerência russa nas eleições presidenciais americanas e nas ligações entre a sua campanha eleitoral e os russos.

Mais recentemente o próprio Trump admitiu que a investigação sobre "this Russia thing" pesou na sua decisão.

Seja como fôr esta situação levanta densas nuvens sobre o futuro de Trump enquanto presidente, já que são cada vez mais as vozes que contestam a actuação presidencial e o facto de ele parecer querer situar-se acima da lei. Os Republicanos, na sua mioria submetidos ao poder de Trump, asseguram, por enquanto, alguma protecção contra eventuais tentativas de avançar com um impeachement. Mas são muitos os que comparam a situação de Trump com a de Nixon, sendo que o velho presidente nunca teve coragem para demitir o então presidente do FBI e foi incapaz de questionar o velho sistema do "cheks and balances". Mas Trump é um revolucionário, como o definiu Pacheco Pereira, e isso não tem que ser - não é - necessariamente uma coisa boa.

Trump já tinha mostrado ao que vinha quando demitiu Sally Yates. Esta foi a primeira pessoa que trump despediu quando chegou ao poder. Mas na vetusta democracia americana os despedidos não perdem a voz e o poder que o seu conhecimento lhes assegura. Por isso as declarações de Yates ao Senado devem ter levado Trump a pensar que despedir alguém não é solução para todos os seus males. Por isso não se percebe que tenha insistido com o director do FBI. A menos que Trump se mova por desespero, o que poderá significar que o risco que ele corre é muito maior do que aquilo que nós podemos avaliar.

11/05/17

O nomadismo eleitoral de Mélenchon e outros detalhes

Jean LUc Mélenchon já escolheu a circunscrição na qual irá submeter-se ao voto dos cidadãos. Será em Marselha, numa circunscrição gerida pelos socialistas. [ la 4e des Bouches-du-Rhône] 
Esta decisão tem sido objecto de criticas já que era esperado que o líder da França Insubmissa defrontasse a Frente Nacional nos bairros em que essa força politica é muito forte, como acontece na 3ª circunscrição nos Bairros do Norte de Marselha.
Na verdade o que Mélenchon faz é candidatar-se num local em que as hipóteses de ser eleito são muito elevadas. Nada de diferente do que habitualmente se faz. Pesa na sua decisão o facto de em 2012 não ter sido eleito para o Parlamento, por ter sido derrotado por um candidato da Frente Nacional, que tinha deicidido enfrentar num terreno dificil. Mas não deixa de ser verdade que o principal adversário de Mélenchon é o PSF e que a opção politica de fundo é por tomar o seu lugar, mais do que combater a FN.

Esrta decisão tem provocado algumas críticas, sobretudo da esquerda marselhesa, que acusa o ex-candidato presidencial de "nomadismo eleitoral". No entanto, é claro que em Marselha a frança Insubmissa tem uma forte base eleitoral, muito superior à dos socialistas.

Manuell Valls está a ser ridicularizado pela sua decisão de integrar a maioria de Macron e porque a sua adesão foi recusada. Uma ridicularização que coloca Valls na sua verdadeira dimensão.

Hamon, o candidato socialista esmagado na primeira volta, anunciou que irá lançar um movimento sem deixar o PSF. Ao mesmo tempo parte significativa das propostas de Hamon não integram a candidatura dos socialistas às legislativas.[as mais a esquerda, como seria de esperar] Esse facto terá estado na base da decisão tomada pelo ex-candidato de lançar o seu próprio movimento.

A reconfiguração da direita e a sempre eterna reconfiguração da esquerda estão aí a decorrer a céu aberto. Vamos ver quem ganha e quem perde. Tempos muito interessantes, os que se vivem em França.

Entretanto deixo aqui um link para uma análise de Dani Rodrick sobre o programa económico de Macron, que, recorde-se, Piketty descreveu como um candidato do passado por força das suas propostas económicas.

09/05/17

Manuel Valls. A descarada atracção do poder.

Bastaram dois dias para que Manuel Valls viesse declarar que pretende fazer parte da nova maioria presidencial e integrar o partido de Emmanuel Macron, que sucederá ao movimento "En Marche".
O homem que queria mudar o nome do partido socialista, e a quem Hollande atribuíu o lugar de primeiro-ministro, mostra, mais uma vez, o que o move na politica.
Claro que se pode sempre analisar a debacle dos socialistas à luz da crise da social-democracia  - uma operação que agrada tanto à direita como a parte da esquerda - não cuidando de saber quais as responsabilidades da dita, face aos protagonistas que ascenderam nos partidos socialistas e que colocaram o socialismo num baú de coisas antigas. Os que aderiram entusiasticamente à terceira via e seus derivados e que assumem como inevitáveis a liderança do mercado e a economia da desigualdade.
Ficamos com uma dúvida: irá Hollande seguir o seu primeiro-ministro dilecto?

07/05/17

Ainda as eleições em França.A vitória de Macron.

Macron venceu, como a maioria desejava, face ao cenário Macron versus Le Pen. O apoio a Macron não tem qualquer comparação com o que sucedeu em 2002.
Além de uma reconfiguração da esquerda - a implosão do PS francês é o principal facto politico à esquerda - vai haver uma reconfiguração da direita. Macron não goza de grandes simpatias nos sectores mais conservadores, os que apoiaram Fillon e que na sua maior parte votaram Le Pen na segunda volta.
Neste momento a Frente Nacional é o maior partido francês e isso era inimaginável há uns anos atrás. Há razões para isso: razões politicas, razões que se fundam na forma como a Europa tem sido governada, na forma como a França foi governada. Hollande não alterou grande coisa ao que Sarkozy tinha feito. A sua deriva securitária, a sua falta de autoridade no contexto da Europa, e a sua subserviência em relação a Merkel ditaram este resultado. Le Pen está institucionalizada. Agora irá limpar a imagem do partido profacista, mudando-lhe o nome. Voltará mais forte ou mais fraca, isso depende dos que no poder e à esquerda fizerem.


Em Julho nas legislativas ficaremos a saber com que linhas se coserá o futuro da França e da Europa.
Para quem tiver interesse deixo um conjunto de links onde poderão ver uma entrevista de Macron com os jornalistas da MEDIAPART. (aqui, aqui , aqui, aqui e aqui )
Ajuda a perceber que politico é este que os franceses acabam de eleger seu Presidente da República.

PS - o link para esta entrevista foi-me enviado pelo meu amigo Pedro Caldeira Rodrigues, jornalista da Lusa, a quem agradeço.

06/05/17

Eleições em França.. A magna questão do FASCISMO.

Marie Le Pen é uma fascista, como fascista é o seu partido, a Frente Nacional. Se eu votasse em França votaria Macron nesta segunda volta das Presidenciais, sem nenhuma espécie de dúvida.
Julgo que a esquerda francesa deverá fazer o mesmo. A esquerda é anti-fascista, a menos que já não seja de esquerda.
Macron poderá ter muitos defeitos, politicamente falando, mas não é o teatchariano Fillon, muito menos é alguém que se possa comparar, politicamente falando, com a fascista Le Pen.
Como recorda Varoufakis, no Guardian,  o combate do próximo domingo é uma reedição do que se travou em 2002, quando Chirac enfrentou o senhor Jean Marie-Le Pen, o velho fascista, pai da actual candidata. Há uma diferença nas eleições: em 2002 toda a esquerda apoiou Chirac. A diferença é, aliás, assustadora. Uma parte da esquerda, a que Mélenchon representa, não apoia Macron, havendo índicios de que uma parte significativa dos eleitores da França Insubmissa não votarão no candidato do En Marche.
Há momentos em que é necessário escolher e tomar decisões, mesmo que tenhamos que engolir alguns sapos pelo meio.
O combate que a esquerda trava é por uma sociedade  mais justa, mais democrática, mais progressista. Esse combate não pode ignorar a ameaça concreta do fascismo. Colocar no dois pratos da balança, numa suposta posição de equilíbrio, o fascismo e a direita, mesmo  a mais conservadora, é um erro crasso e politicamente um desastre.
Recordemos o que escreveu Walter Benjamim [ citado por Neil Leach] acerca da ascensão do fascismo na Europa na primeira metade do século passado e sobre as consequências dessa ascensão.

"(...) O problema da modernidade reside[ para Benjamim] na tentativa de conciliar a ascensão da massa do proletariado com o sistema de propriedade vigente. Uma das vias para a resolução deste conflito consiste em recorrer ao fascismo, enquanto meio político que "tenta organizar a massa do proletariado recentemente criada sem interferir no sistema de propriedade que essa massa pretende eliminar". O fascismo goza assim de particular poder de atracção no ínicio da modernidade, tendo, para Benjamin, como "resultado lógico a introdução da estética na esfera política". As consequências são assustadoras: "Todos os esforços para introduzir a estética na política culminam num só ponto: a guerra. A guerra, e só a guerra, é capaz de criar um objectivo para os movimentos de massas em larga escala e respeitar simultaneamente as relações de propriedade tradicionais"(...)"


É isso que a senhora Le Pen se propõe fazer : organizar o descontentamento das massas vitimas das politicas dominantes na União Europeia, e canalizar essa sua energia para manter as relações de propriedade e de poder dominantes e assegurar não só a continuação da exploração mas também uma forte repressão dos direitos básicos dos cidadãos e da própria ideia de democracia. Trata-se de uma movimento de carácter fascista que quer aproveitar o descontentamento crescente de sectores cada vez mais amplos, para, em última análise, reprimir e esmagar qualquer movimento que se funde sobre esse descontentamento. Um movimento fortemente xenófobo e fortemente racista mas que não recusa o voto dos africanos e dos restantes emigrantes em solo francês, que pretende, depois, colocar fora das fronteiras.